ELIANE HAAS

ELIANE HAAS

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sábado, 5 de setembro de 2020

A METAFÍSICA DE IFÁ ATRAVÉS DOS ODU

Sistemas oraculares tem sido utilizados desde os primórdios e em todas as culturas, com a finalidade de aconselhamento e comunicação com as divindades. A ancestral tradição espiritual Yorubá parece ser originária do Egito pré faraônico, conhecido como Kemet, e dali emigrou para a África Ocidental. 
Os oráculos das antigas civilizações negras visam orientar indivíduos e nações em todas as áreas da vida. Através deles foi possível descobrir a causa espiritual e significado para eventos terrestres. Estes antigos oráculos prescrevem procedimentos e rituais iniciáticos com a finalidade de manipular forças capazes de alterar acontecimentos da vida. 
Segundo a Tradição Yorubá, Ifà é o instrumento entregue por Orunmilà – a Entidade testemunha da Criação - aos humanos, para que se aprimorem e melhorem o seu caráter, vencendo da melhor forma possível os desafios da vida, alinhando-se com o destino escolhido, que cada um se propôs a cumprir na Terra. 

O sistema oracular Yorubá utiliza-se, através dos Odu, de uma tecnologia de codificação binária combinada através de 16 Odu primordiais que “procriam” entre si, resultando em mais 240. Cada um desses 256 Odu constitui um verdadeiro Livro com algumas dezenas de versos/parábolas, transmitidos oralmente durante milênios. São Portais de acesso a Fonte Divina, configurações que mapeiam todas as situações arquetípicas da vida, resumindo todas as estruturas que a Manifestação nos permite, em seus aspectos positivos e negativos. 
Esse mapeamento vem apontar situações ou aspectos passíveis de melhora ou cura, pois segundo Ifà, a finalidade de se recorrer aos oráculos seria buscar uma solução capaz de transformar o negativo em positivo. 
Trata-se de padrões energéticos dinâmicos aos quais novas experiências e aprendizados vem se acrescentando ao longo dos tempos. Resumindo, são portanto 256 Portais com acesso a inúmeras dezenas de “túneis”. Resultam em milhares de aconselhamentos e instruções para aqueles que recorrem a esse HD. Este HD cósmico universal é conhecido em várias tradições esotéricas sob a denominação de “registros akáshicos”. 

Cada Odu é composto de 4 marcas dispostas em 2 fileiras, num total de 8. A direita, polaridade masculina (pai) e a esquerda, polaridade feminina (mãe). Cada fileira/perna nada tem a ver com sexo, mas representa um princípio metafísico como organização de dados que nos formam e guiam, sempre encarnando uma determinada polaridade (semelhantes as polaridades Yin e Yang que onstituem o Tao chinês). 
As diferentes frequências de energia em cada perna combinadas entre si, totalizam 256 portais. Aqui vemos a Lei da Polaridade em ação. 
Cada marca, num total de 8 compondo cada Odu, é 1 ou 0, sendo identificado por uma ou duas pequenas linhas paralelas. A linha única representa o UM princípio criativo, fecundador - e a linha dupla o ZERO receptivo, fecundado. Juntos representam a ideia de complementaridade e mudanças, pois a Cosmologia de Ifà postula que a única coisa perene é a impermanência. Tudo nasce do 0 : a escuridão, o útero. Daí se manifesta a dualidade do universo manifestado e expressada incessantemente através de opostos complementares. Nem Mal nem Bom. Apenas expressão da energia contida em todas as coisas.

As transições entre 1 e 0 representam a irreversibilidade e causalidade dos processos físicos: armazenamento, transferência e manipulação de dados – que resulta em nascimento, morte, transformação e renascimento. 1 e 0 representam as duas forças complementares e opostas, fundamentais na Natureza: 
masculina X feminina
ativa X receptiva
expansiva X retraída
fecundadora X geradora
atrativa X repulsiva
yang X yin 

Toda a Manifestação pode ser representada nesse modelo, traduzida através dos seus constituintes binários numa regência de 1 e 0 processada por um computador universal, que é Ifà.
Segundo a Tradição, esse Corpo Literário de Sabedoria é uma Chave que, desde que em total alinhamento com a energia de Elà – o Espírito da Luz presente em toda a Criação - estará à disposição do Babalawo (sacerdote), ou em alguns casos da Iyanifà (sacerdotisa), para que, em estado de lai-lai (consciência alterada) acesse com precisão as instruções de Orunmilà. Não se trata, porém, de algum tipo de comunicação mediúnica. Galgar a posição de verdadeiros Babalawo / Iyanifà requer, além de aprendizado intenso de praticamente toda uma vida dedicada ao estudo de Ifà, também a devida autorização, obtida através de ritual específico. 

Da mesma forma que Metu Neter, a linguagem codificada nos oráculos egípcios é, segundo o Book of Fate, a própria voz de Deus. Quando da imersão nos versos dos Odu, há que transcender a literal interpretação de textos, pois estes são apenas uma senha, uma chave de acesso à Mente Universal através dos meandros dos infinitos arquivos do Inconsciente Coletivo. 
Sábios anciãos de Ifà acreditam que os ensinamentos de Orunmilà sejam os primeiros oferecidos ao ser humano na Terra. Isso é possível, já que historicamente na África surgiu o primeiro homo sapiens sapiens. 
Percebe-se em Ifà uma similaridade com os ensinamentos Herméticos que tanto influenciaram a Alquimia: transformar o chumbo e ouro. Ressaltar no Ser encarnado a sua mais nobre essência – o iwa pele, traduzido como “bom caráter”. Considerando, no entanto, que o ideal a ser alcançado não seria o Bem, pois na Manifestação dual não existe o Bem Absoluto, mas o Equilíbrio. 
Segundo os próprios versos, Orunmilà esteve na Terra e, ao se afastar desse plano, deixou as instruções oraculares como forma de comunicação para sempre que os humanos desejassem recorrer ao seu aconselhamento. Devido a esse acesso ao Akasha, os oráculos de Ifà são considerados não um recurso intuitivo, mas a própria Voz dAquele que tudo sabe, porque tudo presenciou, desde sempre.

Uma bela similaridade com o Olho de Horus que tudo vê da civilização Egípcia. No Kemet, como se denomina o Egito Arcaico, os códigos binários foram compilados no Book of Fate, encontrado por Napoleão nas tumbas do Vale dos Reis. Datados de mais de 7 000 anos, se achavam em pleno uso e foram oráculos documentados por Babastis, um sacerdote de Tehuti. Esse sacerdócio uniu-se ao de Seshat, deusa pré dinástica da Sabedoria ( cujo nome é ligado a folha da palmeira que ela leva na cabeça e significa sabedoria. Interessante notar que Orunmilà é chamado Agbonniregun, numa alusão à palmeira, mais precisamente aos seus frutos.) 

Conforme se pode constatar, Ifá utiliza um sistema oracular binário baseado em signos denominados Odu, milênios antes do sistema numérico binário ser proposto por Leibniz (1646-1716) e utilizado como linguagem da computação moderna. Tudo o que foi, é e será, pode-se encontrar nesses códigos binários.

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