ELIANE HAAS

ELIANE HAAS

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sábado, 17 de julho de 2010

O RITUAL DE SACRIFÍCIO na religião yorubá - parte 2

A religião africana, tratando-se aqui especìficamente da vertente yorubá, tem por finalidade, além do desabrochar da semente de Energia Divina - o Orixá - que gerou a vida da pessoa na presente encarnação, promover harmonia na sua existência presente na Terra, a fim de que cumpra o seu carma, da melhor maneira possível.
Num Universo em constante movimento, esta harmonia se viabiliza mediante o intercâmbio energético para restauração do equilíbrio de forças que transitam entre o orun (o além) e o ayiê (o mundo material). Esta energia, contida nos diversos elementos da Natureza - que é viva – denomina-se “axé” e permeia os reinos animal, vegetal e mineral . Uma das três categorias de axé encontradas no reino animal é o sangue.
O sangue, veículo da Vida por excelência, é considerado Divino, não pode ser fabricado artificialmente (sangue não é plasma) e é a sagrada essência da Vida em matéria.
Como religião das mais antigas ainda atuante no planeta Terra, com suas instruções ritualísticas registradas na literatura de Ifá que, segundo a tradição, foram estabelecidas diretamente pelo Orixá da Sabedoria e Testemunha da Criação (Orunmilá), mobiliza e transfere axé através de rituais de sacrifício de várias espécies.
Os sacrifícios animais são oferendas que movimentam o fluido vital liberado – axé - que, atuando num âmbito não-físico, tem o poder de alterar situações indesejadas na vida humana. Há uma crença simplória e não destituída de preconceito maldoso, que identifica um suposto primitivismo dos Orixás como “espíritos apegados ao ato de comer”.
Como Forças / Energias da Natureza, é óbvio que os Orixás não necessitam de comida e, muito menos, de sangue. O sangue é o fluido vital que corre nas nossas veias nos assegurando a sobrevivência e é inerente à vida orgânica na Terra. Mediante os rituais de sacrifício, no momento em que a Vida é liberada, este sagrado fluido vital é transferido e usado para operar, sanando o problema do ser humano necessitado.
Quem afirma que esta prática pode estar superada, alegando que os mesmos resultados podem ser obtidos sem derramamento de sangue animal, desconhece o que seja axé. Pode até estar inventando uma nova religião mas, certamente, não estará lidando com a energia dos Orixás.
Os sacrifícios animais praticados pela religião yorubá, além de movimentar e utilizar axé, servem para alimentar as pessoas, uma vez que a carne é, na quase totalidade das vezes, consumida como alimento.
Ali o animal é encaminhado de forma indolor, com rezas, respeito e gratidão. Nenhum sacrifício é realizado de forma leviana e jamais o sangue é derramado em vão. Uma religião multi milenar que venera a Mãe Natureza (Onilé) só poderia respeitar a vida animal e encará-los como nossos parceiros na saga da vida terrestre.
Muito nos surpreende a veemência com que pessoas que ignoram esses fundamentos e, incapazes de resolver as situações gravíssimas com que a religião yorubá muitas vezes se defronta e soluciona, atacam a prática do sacrifício ritual como “incivilizada”.
Civilizada é, para eles, a situação dos matadouros que fornecem carne de animais crescidos e torturados em confinamento para saciar a simples gulodice das classes mais abastadas no seu dia a dia e inclusive nas suas festas religiosas. São as touradas na Espanha católica, os safaris e caçadas na Inglaterra protestante. As brigas de galo e de cães.
Civilizado é o consumismo de caros acessórios de couro e pele. Curiosamente, não se costuma questionar como e por que animais são mortos quando se trata de algum petisco gastronômico, um sapato ou casaco de couro ou uma forração de pele que não salvam a vida ou restabelecem a saúde de alguém, mas se destinam exclusivamente a saciar a sua vaidade.
Vista grossa se faz para o tráfico e extinção de animais exóticos, para os pássaros em cativeiro enfeitando gaiolas domésticas e a tortura a que são submetidos os animais marinhos.
Mais grossa ainda, para a intolerância com que o Cristianismo - a religião que, segundo eles, veio implantar o amor na Terra - dizimou civilizações inteiras em vários continentes e assassinou centenas de pessoas, durante séculos, nas fogueiras da Inquisição. Discriminar e perseguir a religião alheia é, certamente, um crime bem mais grave do que oferecer animais aos Deuses e, posteriormente, comê-los.
A religião yorubá não é hipócrita e não tem a pretensão de criar na Terra condições de vida que ignorem o ciclo da Vida e da Morte.
Enquanto estivermos encarnados em matéria, nestes corpos fabricados pela Terra,
onde corre sangue como fluido vital em nossas veias e ininterruptamente seres vivos comem uns aos outros para sobreviver, dentro e fora dos nossos corpos
- onde a própria Terra é um manancial de Vida proveniente de um grande cemitério, alimentada por todos os corpos animais e vegetais que aqui se decompuseram desde o início dos tempos, constataremos que, mesmo as plantas estão impregnadas de sangue - qualquer pretensão que transgrida essas Leis, será, no mínimo, utópica.

O RITUAL DE SACRIFÍCIO através dos tempos - parte 1

O sacrifício de animais é a mais antiga expressão de re-ligação com o Divino e presente em todas as civilizações da Terra, tendo sido praticado em todos os continentes. Este ritual data da época em que, segundo os mitos, os “deuses habitavam a Terra” e ensinaram aos humanos esta forma de conexão e culto à Divindade Suprema através das suas múltiplas formas de expressão.

Sua prática é historicamente conhecida dentre egípcios, gregos, romanos e todos os povos do Mediterrâneo e do Oriente Médio.
Tendo como base achados arquelógicos, podemos constatar que na totalidade das civilizações das Américas, do Alasca à Patagônia, a prática dos sacrifícios animais foi uma constante. Incas, maias, astecas, nos seus períodos de franca decadência, recorreram também a oferendas humanas. Aliás, a prática sacrificial dos povos derrotados em guerra foi uma constante em quase todas as civilizações da Terra, inclusive dentre as diversas etnias do nosso atual Brasil.
O Yajurveda, um dos quatro Vedas, contém grande parte da liturgia e dos rituais necessários para a prática religiosa hindu, incluindo os ritos sacrificiais. No período de 1000 a 800 a.C., o Hinduísmo passou a basear seu sistema de crenças na constante necessidade de sacrifícios. A população podia consumir a carne apenas de animais abatidos por sacerdotes. Neste período surgiu no Hinduísmo o sistema de castas, o conceito de Carma, reencarnação e a concepção de que almas animais podiam evoluir até a condição humana.
Textos como o Ramayana e outros demonstram que os sacrifícios de animais eram comuns na prática religiosa hindu. Mais tarde, com o advento de novas concepções religiosas, os sacrifícios foram abandonados, em sua maior parte. Por não ser, no entanto, uma religião organizada, o Hinduísmo permite uma variedade de rituais nitidamente destoantes. Enquanto que na maior parte dos lugares os Templos abriguem animais desamparados e os devotos lhes ofereçam alimentos como parte de seu rito, em outras regiões cadáveres humanos expostos acabam sendo consumidos pelos mesmos animais por eles preservados.
Devido a profunda ignorância em que decaíram muitas concepções religiosas no seio das populações mais primitivas da Índia, de vez em quando ocorrem intervenções policiais detendo pessoas que tentam oferecer sacrifícios humanos, principalmente à deusa Kali.
É um ironia que, justamente na terra que, para todos os efeitos, prega o vegetarianismo e a não violência (embora seja, na prática, onde sangrentos distúrbios determinem a tônica política) degenerações desta ordem se manifestem.
Sacrifícios eram, e por vezes ainda são, também praticados no seio das antigas religiões da Ásia. Confúcio descreve a existência de sacrifícios na China do século VI a.C.
No Islam, o período de peregrinação à Mecca (Hajj) é marcado por um rito sacrificial denominado Eid-ul-Adha (comemoração do sacrifício). Este sacrifício lembra que Abraão esteve prestes a sacrificar seu filho (que, de acordo com a tradição muçulmana não era Isaac, mas Ismael) e, passando na prova de obediência a Deus, acaba oferecendo um animal surgido de repente mediante intervenção divina. Na peregrinação, quem tem condições leva um cabrito, uma cabra, uma ovelha, um camelo ou uma vaca, para serem sacrificados. A carne destes sacrifícios é compartilhada com a família e os amigos e um terço é dada aos pobres. Todos estes preceitos estão contidos na Surata Al-Hajj (o capítulo do Al-Corão que trata da peregrinação a Mecca).
No Al-Corão (22:37) está explicado que Deus não se beneficia da carne nem do sangue dos animais que são sacrificados, mas que a fé do devoto e sua boa intenção é que são considerados. O animal deve ser abatido tendo sua jugular cortada e seu sangue drenado. Não é permitido supliciar o animal. Só assim esta carne é considerada “halal” - própria para consumo.
O sacrifício animal sempre existiu entre os hebreus, muito antes da entrega da Torah (Lei recebida por Moysés no Monte Sinai). Caim e Abel, Abraão e filhos, Noé e família, todos ofereciam sacrifícios. Quando as leis de sacrifício foram entregues aos filhos de Israel na Torah, a pré existência de um sistema de oferta de sacrifício foi então regulamentado e praticado no Templo de Jerusalem. Esta prática foi interrompida no ano 70 da era atual, devido à destruição do Templo pelos romanos.
Como a Torah autoriza os rituais de sacrifício exclusivamente naquele local (Deut. 12:13-14), sòmente com a chegada do Messias e o conseqüente restabelecimento deste local de culto, os sacrifícios poderão ser retomados. Como o Judaísmo não reconhece poder centralizado, certa vez um grupo de rabinos emitiu parecer para a prática de sacrifícios em outro lugar e algumas comunidades retomaram esta prática em ocasiões específicas.
No entanto, a maioria baseou-se na Torah para se pronunciar contra e os sacrifícios rotineiros cessaram. Por enquanto os judeus realizam serviços de oração para a vinda do Messias, a restauração do Templo e o restabelecimento dos rituais que a Torah preconiza, incluindo os sacrifícios.
Os judeus procedem hoje o ritual de abate de animais para alimentação da mesma forma respeitosa com que realizavam os sacrifícios, com rezas e uma lâmina afiada que cause morte rápida e indolor.

Vamos encontrar na Lei judaica os três conceitos fundamentais subjacentes ao sacrifício (Korban) que norteiam as Leis de sacrifício também nas religiões africanas atuais : doação, substituição e louvor.
O primeiro aspecto é a doação: o sacrifício exige a renúncia de algo que de melhor pertence à pessoa que está ofertando. Assim , os sacrifícios são realizados com animais domésticos que sirvam para alimentação. Animais selvagens estão excluídos, por não constituírem patrimônio. Os objetos de sacrifício devem ser fisicamente perfeitos, sem marcas ou lesões, preferivelmente jovens e sadios.
Também a oferta de alimentos, na forma de cereias (minchá) e derivados, por exigirem trabalho / sacrifício no seu preparo. Representa a devoção dos frutos do trabalho do homem para o seu Criador, algo obtido e confeccionado através do seu próprio esforço. Dentro deste mesmo princípio há também a oferta de bebida (nesekh) .
O de substituição é a idéia de que o objeto que está sendo oferecido é um substituto para a pessoa que faz a oferta. A oferta substitui o ofertante em sistema de troca. Trata-se de um procedimento bem comum nos rituais de Magia.
O terceiro é a idéia de reverência e homenagem, com a finalidade de estabelecer aproximação com o Divino, como gesto de amor de gratidão. Esta oferenda, ao invés de ser consumida como alimento é completamente queimada no altar exterior, pois representa a completa submissão à vontade de Deus, expressando o desejo de comunhão com Ele.
Embora o Cristianismo, ao se estabelecer como religião, não tenha adotado sacrifícios animais como prática ritual, os cristãos primitivos, sem dúvida, praticavam sacrifícios no Templo de Jerusalém até a sua destruição.
Jesus e seus pais quando se dirigiram ao Templo (no conhecido episódio em que ele discutiu a Torah com os sacerdotes), para lá se encaminharam com a intenção de participar do ritual da páscoa (Pessach), que òbviamente incluía o oferecimento de um animal para sacrifício.
Há, no entanto, resquícios de práticas sacrificiais na tradição católica ibérica como podemos verificar na selvageria das touradas e nos “sacrifícios” humanos impostos pelo Santo Ofício, à título de expiação de pecados.
A teologia cristã estabeleceu que todos os sacrifícios teriam sido substituídos pelo sacrifício de Jesus na crucificação e a mera fé neste fato conduz o devoto à sua salvação. No entanto, o culto e a eucaristia são práticas que remontam ao sacrifício, representando o vinho o sangue e a hóstia a oferenda de carne ( no caso católico). O simples fato de Jesus ter sido considerado uma oferenda válida, demonstra, porém, que o Cristianismo aceita, teologicamente, a validade dos sacrifícios.
Com efeito, sem a idéia de que Jesus serviu como cordeiro sacrificial para expiar os pecados do mundo, o Cristianismo ficaria destituído do seu sentido de existência.

sábado, 10 de julho de 2010

ORUNMILÁ, PAI DO ORÁCULO SAGRADO

Conforme mencionado na postagem de 29/05/10, hoje retomaremos o tema “Orunmilá”. Orunmilá é o Orixá Senhor da sabedoria (ogbon) e do conhecimento (imo) , que tendo adquirido o direito de viver entre o orun (o além) e o aiyê (o mundo material) , tudo sabe e tudo vê na totalidade dos mundos. Por isso recebeu o título de gbaiye gborun : aquele que vive tanto no céu como na terra, transcendendo espaço e tempo.
Como testemunha da criação universal é chamado também de elerii ipin e detém o conhecimento do passado, presente e futuro do destino de todos os habitantes do aiyê e do orun em todas as dimensões cósmicas.
Na Terra, Orunmilá é quem apresenta o destino ao reencarnante por ocasião da sua concepção (kadara) e, mediante aceitação pelo livre arbítrio individual, libera o indivíduo para o ( re-) nascimento. Conhece todos os destinos e como propiciar o sucesso em todos os âmbitos, alem de revelar o Orixá pessoal de cada um, ou seja, a substância da qual cada um foi extraído na atual existência e como integrar o indivíduo a este princípio Divino.
Como a religião yorubá é totalmente baseada em mitos (itan) que constituem a literatura de Ifá, conta-se que,
" após permanecer na Terra por algum tempo, Orunmilá retornou ao orun, esticando uma longa corda pela qual ascendeu. Os seres humanos ficaram totalmente desorientados. O caos, a fome e a peste imperaram na Terra, já que ele era o porta-voz da vontade de Olodumare - a Suprema Divindade Universal. O ciclo de fertilidade das plantas e animais foi interrompido, trazendo ameaça de extinção. O clamor pela sua volta não foi atendido, mas deixou com seus filhos os 16 ikin (coquinhos de dendezeiro) , que se transformaram num importante instrumento de adivinhação denominado "ikin". Entregou os ikin instruindo que sempre que desejassem as coisas boas e realizações positivas na vida, deveriam consultar os coquinhos. Daí nasceu o sistema oracular denominado Ifá, que auxilia o ser humano na resolução dos seus problemas cotidianos, nos conflitos e nas dúvidas existenciais, como mediador entre o humano e o divino. Assim, Orunmilá é considerado o Pai do Oráculo."
Uma modalidade oracular mais simples é o ibo e a mais popular das três é o opele ifa. Apenas sacerdotes iniciados no culto de Orunmilá - os Oluwo e Babalawo – são credenciados para utilizar esses oráculos.
Os oráculos são baseados no sistema binário e comportam 256 combinações matemáticas que definem os caminhos de Odu, com seus milhares de itan (mitos) e owe (parábolas). Sua missão foi organizar as relações humanas, ajudar na doença, orientar nas contendas de todo tipo de assunto, valendo-se para isto dos itan relatados pelos Odu.
Todo o corpo filosófico da religião yoruba se resume nesses signos de Ifá – os Odu , que por sua vez se subdividem em caminhos com os respectivos itan, que são mitos de instrução, orientação e aconselhamento.
O nome de Orunmilá e o do sistema oracular opelê ifá muitas vezes se confundem e o culto a Orunmilá passou a ser conhecido como Ifá. Já o oráculo merindilogun – o popular jogo de búzios – mediante interferência do Orixá Exu, pertence a Oxun e pode ser consultado por sacerdotisas. No jogo de búzios utilizam-se 16 kawri (búzios) no qual respondem os 16 odu principais, num total de 70 caminhos e os orixás que respondem através deles. Independente da modalidade utilizada, para cada caminho há um itan a ser interpretado.
Na tradição religiosa yorubá, nada se empreende sem prévia consulta ao oráculo e todo procedimento ritualístico dele depende. Conforme informado anteriormente, o oráculo é a única opção autorizada e confiável quanto à definição do Orixá pessoal, responsável pela cabeça do ser humano.
Orunmilá é o interventor e defensor dos seres humanos, sempre tentando minorar os sofrimentos e dificuldades que enfrentam na saga das suas sucessivas existências na Terra.