ÁGUIA DOURADA

ÁGUIA  DOURADA

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sábado, 24 de julho de 2010

ENSINO E ASSÉDIO RELIGIOSO

BIBLIOGRAFIA PARA O ENSINO RELIGIOSO

Um estudo realizado pela antropóloga e professora do Departamento de Serviço Social da Universidade de Brasília, Débora Dias, acaba de ser apresentado na obra “Laicidade: O Ensino Religioso no Brasil”.

Produzido com base na análise dos 25 livros de ensino religioso mais usados pelas escolas públicas do país, a pesquisa concluiu que o preconceito e a intolerância religiosa são a base dos ensinos ministrados a milhares de crianças e jovens do ensino fundamental brasileiro. “O estímulo à homofobia e a imposição de uma espécie de ‘catecismo cristão’ em sala de aula são uma constante nas publicações”.
A pesquisa analisou os títulos de algumas das maiores editoras do país. A imagem de Jesus aparece 80 vezes mais do que a de qualquer liderança indígena no campo religioso - limitada a uma referência anônima e sem biografia -, 12 vezes mais que o líder budista Dalai Lama e com espaço 20 vezes maior que Lutero, referência intelectual para o Protestantismo. João Calvino sequer é citado.
Esses números são contrastantes com a Lei de Diretrizes e Base da Educação ( Lei nº 9475, em vigor desde 1997),cuja ordem é garantir justiça religiosa e liberdade de crença. Ela pretendia regulamentar o ensino de religião nas escolas brasileiras, mas, na prática está havendo evidente confusão entre o ensino religioso e a educação cristã.
A antropóloga reforça a imposição do catecismo. “Cristãos tiveram 609 citações nos livros, enquanto religiões afro-brasileiras, tratadas como ‘tradições’, aparecem em apenas 30 situações”.

O estudo aponta também clara discriminação contra homossexuais. “Desvio moral”, “doença física ou psicológica”, “conflitos profundos” e “o homossexualismo não se revela natural” são algumas das expressões usadas para se referir aos homens e mulheres que se relacionam com pessoas do mesmo sexo. Um exercício com a bandeira das cores do arco-íris acaba com a seguinte questão: “se isso (o homossexualismo) se tornasse regra, como a humanidade iria se perpetuar?”.
A pesquisadora afirma que o estímulo ao preconceito chega ao ponto de associar uma pessoa sem religião ao nazismo – ideologia que prega o racismo e o anti-semitismo e provocou, no séc. XX, uma guerra devastadora que assassinou milhões de civis. “Os livros usam de generalizações para levar a desinformação e pregar o cristianismo” e “Sugerem que um ateu tenderia a ter comportamentos violentos e ameaçadores”, completa a professora Débora.
(fonte: agência UnB)

ASSÉDIO RELIGIOSO - Eduardo Beyer
São os povos em situação de opressão econômica, como os povos indígenas, especialmente suscetíveis ao assédio religioso?
É muito raro encontrar referências a respeito na web, mas é fácil compreender que é essa forma de assédio um dos mais terriveis braços a serviço do etnocídio, já que substitui funções de benefício humanitário, que deveriam ser realizadas pelo Estado laico, cobrando por isso o abandono de tradições culturais que lhe são próprias e a aceitação cega de um contexto cultural que lhe é alienígena.
Segundo Mauro Kerob, "O assédio religioso talvez seja um dos mais terríveis e criminosos porque mexe com visões de mundo. (...) os religiosos chamam esse assédio de proselitismo. Proselitismo religioso, quando estão 'levando a palavra de Deus' ? Por que este proselitismo se transforma em assédio? Transforma-se porque os religiosos andam em grupos e costumam abordar uma ou no máximo duas pessoas; a superioridade numérica transforma o proselitismo em assédio".
Mas o que acontece quando o proselitismo está amparado em promessas de benefícios econômicos? É claro que isso se constitui em assédio religioso, talvez o mais tolerado dos assédios já que situa-se sempre a favor do status quo das classes dominantes, desde os tempos da colonização mercantilista.
Por exemplo, vejamos o caso dos Guajajara, que têm uma história longa e muito singular de contato com os brancos. O primeiro contato pode ter acontecido em 1615, nas margens do rio Pindaré, no Maranhão, com uma expedição exploradora francesa. Até os meados do século XVII, os Tenetehára foram assolados pelas expedições escravagistas dos portugueses no médio Pindaré. Esta situação mudou com a instalação das missões jesuítas (1653-1755), que ofereceram certa proteção contra a escravidão, mas implicaram um sistema de dependência e servidão.
Depois da expulsão dos jesuítas da Colônia pela Coroa, os Tenetehára conseguiram recuperar parte de sua antiga independência, reduzindo os contatos com os colonizadores. A partir de meados do século XIX, foram progressivamente integrados em sistemas regionais de patronagem, com todas as formas conhecidas de exploração extrema (como coletores ou remeiros, por exemplo).
A política indigenista da época não articulava qualquer proteção contra estes abusos. Os Guajajara, de vez em quando, reagiam violentamente, mas em geral permaneciam submissos.
A maior revolta, no entanto, foi causada por um empreendimento de missão e colonização dos capuchinhos, a partir de 1897, em Alto Alegre, na região atual de Cana-Brava. Em 1901, o cacique Cauiré Imana conseguiu unir um grande número de aldeias para destruir a missão e expulsar todos os brancos da região entre as cidades de Barra do Corda e Grajaú. Poucos meses depois, os índios foram derrotados pela milícia (composta de contingentes do Exército, da Polícia Militar, de indivíduos da população regional e de guerreiros Canelas) e perseguidos por vários anos, o que fez muito mais vítimas entre os guajajara do que entre os brancos. A revolta de Alto Alegre representa um dos incidentes mais importantes na história deste povo.
Novos conflitos sangrentos surgiram a partir dos anos 1960 e 70, com a expansão descontrolada de latifúndios no centro do Maranhão, empurrando muitos posseiros para dentro das Terras Indígenas.
O maior palco destes conflitos foi de novo Cana-Brava, com o povoado ilegal de São Pedro dos Cacetes, que existiu de 1952 a 1995 e contra o qual os guajajara tiveram que resistir quatro décadas, com apoio apenas esporádico do Governo Federal. Outras ameaças surgiram a partir dos anos 1980, com o Programa Grande Carajás e com a cobiça de pequenas madeireiras regionais.
Oprimidos pelos brasileiros, a quem poderiam recorrer os Guajajaras? É aí que entram os missionários estrangeiros e suas noções ingênuas de "cristianização da humanidade".
Entre os dias 5 e 7 de outubro de 2007 aconteceu, nas cidades de Arame, Grajaú e Barra do Corda (MA), o lançamento da Bíblia na língua indígena Guajajara. Fizeram-se presentes representantes de igrejas evangélicas, agências missionárias e, é claro, o povo Guajajara.
Além de um culto especial no Centro de Treinamento Rio Jordão, mantido pelos missionários da Missão Evangélica aos Índios do Brasil e da Missão Cristã Evangélica do Brasil, incluiu uma passeata pelas ruas da cidade. Durante o trajeto, os irmãos Guajajara, ornamentados com cocás de penas de arara e pintura de jenipapo, cantavam hinos em sua própria língua.
O hino mais repetido de todos dizia Tupàn ta’yr a’e wà, huryete a’e wà que, traduzido, quer dizer “os filhos de Deus são alegres”. (...) aquele era um momento histórico por se tratar do lançamento da terceira Bíblia completa em uma língua indígena no Brasil.
Como entender o beneplácito geral em relação ao assédio religioso? Em "De olho na modernidade religiosa", Pierucci explicita que, "já que liberdade religiosa se exerce hoje em dia em chave de livre concorrência, todos os profissionais religiosos responsáveis por esse agito deveriam ser os primeiros a se mostrar sinceramente interessados em mais e mais respeito à liberdade alheia de crença, de culto, de expressão religiosa, de difusão religiosa. Se um dos resultados da desregulação da esfera religiosa é essa superabundância de profissionais religiosos "racionais" que estamos vendo em inaudito ativismo a suprir o mercado de novidades religiosas, bens simbólicos retóricos, serviços taumatúrgicos e as mais variadas bugigangas materiais e ideais de consumo religioso privado, provocando em decorrência uma certa elevação do envolvimento confessional em grande número de naturezas individuais com pendor religioso, as quais se encontram justamente nas camadas sociais que mais têm sido alvo e presa do assédio religioso "novo estilo", então se compreende por que é que atualmente, entre os sociólogos da religião do nosso continente, tende a aumentar o interesse intelectual por teorizações que realçam o peso do fator "oferta" na explicação, seja do crescimento de uma determinada comunidade religiosa, seja do aquecimento de todo um campo que se estrutura em moldes análogos aos de um mercado concorrencial carente de regulação".
Os casos atuais de assédio religioso passam em geral desapercebidos, mas no caso das etnias indígenas sempre ocasionam divisões, vulnerabilização das sociedades, submissão a valores e preconceitos alheios e, muitas vezes, suicídios (por perda de identidade cultural, ofensa da indentidade psíquica e/ou por medo do castigo dos pecados).
Merecem ser estudados mais a fundo e combatidos por meio de medidas legais a favor das nações indígenas e seu esforço de preservação da sua cultura ancestral.

sábado, 17 de julho de 2010

O RITUAL DE SACRIFÍCIO na religião yorubá - parte 2

A religião africana, tratando-se aqui especìficamente da vertente yorubá, tem por finalidade, além do desabrochar da semente de Energia Divina - o Orixá - que gerou a vida da pessoa na presente encarnação, promover harmonia na sua existência presente na Terra, a fim de que cumpra o seu carma, da melhor maneira possível.
Num Universo em constante movimento, esta harmonia se viabiliza mediante o intercâmbio energético para restauração do equilíbrio de forças que transitam entre o orun (o além) e o ayiê (o mundo material). Esta energia, contida nos diversos elementos da Natureza - que é viva – denomina-se “axé” e permeia os reinos animal, vegetal e mineral . Uma das três categorias de axé encontradas no reino animal é o sangue.
O sangue, veículo da Vida por excelência, é considerado Divino, não pode ser fabricado artificialmente (sangue não é plasma) e é a sagrada essência da Vida em matéria.
Como religião das mais antigas ainda atuante no planeta Terra, com suas instruções ritualísticas registradas na literatura de Ifá que, segundo a tradição, foram estabelecidas diretamente pelo Orixá da Sabedoria e Testemunha da Criação (Orunmilá), mobiliza e transfere axé através de rituais de sacrifício de várias espécies.
Os sacrifícios animais são oferendas que movimentam o fluido vital liberado – axé - que, atuando num âmbito não-físico, tem o poder de alterar situações indesejadas na vida humana. Há uma crença simplória e não destituída de preconceito maldoso, que identifica um suposto primitivismo dos Orixás como “espíritos apegados ao ato de comer”.
Como Forças / Energias da Natureza, é óbvio que os Orixás não necessitam de comida e, muito menos, de sangue. O sangue é o fluido vital que corre nas nossas veias nos assegurando a sobrevivência e é inerente à vida orgânica na Terra. Mediante os rituais de sacrifício, no momento em que a Vida é liberada, este sagrado fluido vital é transferido e usado para operar, sanando o problema do ser humano necessitado.
Quem afirma que esta prática pode estar superada, alegando que os mesmos resultados podem ser obtidos sem derramamento de sangue animal, desconhece o que seja axé. Pode até estar inventando uma nova religião mas, certamente, não estará lidando com a energia dos Orixás.
Os sacrifícios animais praticados pela religião yorubá, além de movimentar e utilizar axé, servem para alimentar as pessoas, uma vez que a carne é, na quase totalidade das vezes, consumida como alimento.
Ali o animal é encaminhado de forma indolor, com rezas, respeito e gratidão. Nenhum sacrifício é realizado de forma leviana e jamais o sangue é derramado em vão. Uma religião multi milenar que venera a Mãe Natureza (Onilé) só poderia respeitar a vida animal e encará-los como nossos parceiros na saga da vida terrestre.
Muito nos surpreende a veemência com que pessoas que ignoram esses fundamentos e, incapazes de resolver as situações gravíssimas com que a religião yorubá muitas vezes se defronta e soluciona, atacam a prática do sacrifício ritual como “incivilizada”.
Civilizada é, para eles, a situação dos matadouros que fornecem carne de animais crescidos e torturados em confinamento para saciar a simples gulodice das classes mais abastadas no seu dia a dia e inclusive nas suas festas religiosas. São as touradas na Espanha católica, os safaris e caçadas na Inglaterra protestante. As brigas de galo e de cães.
Civilizado é o consumismo de caros acessórios de couro e pele. Curiosamente, não se costuma questionar como e por que animais são mortos quando se trata de algum petisco gastronômico, um sapato ou casaco de couro ou uma forração de pele que não salvam a vida ou restabelecem a saúde de alguém, mas se destinam exclusivamente a saciar a sua vaidade.
Vista grossa se faz para o tráfico e extinção de animais exóticos, para os pássaros em cativeiro enfeitando gaiolas domésticas e a tortura a que são submetidos os animais marinhos.
Mais grossa ainda, para a intolerância com que o Cristianismo - a religião que, segundo eles, veio implantar o amor na Terra - dizimou civilizações inteiras em vários continentes e assassinou centenas de pessoas, durante séculos, nas fogueiras da Inquisição. Discriminar e perseguir a religião alheia é, certamente, um crime bem mais grave do que oferecer animais aos Deuses e, posteriormente, comê-los.
A religião yorubá não é hipócrita e não tem a pretensão de criar na Terra condições de vida que ignorem o ciclo da Vida e da Morte.
Enquanto estivermos encarnados em matéria, nestes corpos fabricados pela Terra,
onde corre sangue como fluido vital em nossas veias e ininterruptamente seres vivos comem uns aos outros para sobreviver, dentro e fora dos nossos corpos
- onde a própria Terra é um manancial de Vida proveniente de um grande cemitério, alimentada por todos os corpos animais e vegetais que aqui se decompuseram desde o início dos tempos, constataremos que, mesmo as plantas estão impregnadas de sangue - qualquer pretensão que transgrida essas Leis, será, no mínimo, utópica.

O RITUAL DE SACRIFÍCIO através dos tempos - parte 1

O sacrifício de animais é a mais antiga expressão de re-ligação com o Divino e presente em todas as civilizações da Terra, tendo sido praticado em todos os continentes. Este ritual data da época em que, segundo os mitos, os “deuses habitavam a Terra” e ensinaram aos humanos esta forma de conexão e culto à Divindade Suprema através das suas múltiplas formas de expressão.

Sua prática é historicamente conhecida dentre egípcios, gregos, romanos e todos os povos do Mediterrâneo e do Oriente Médio.
Tendo como base achados arquelógicos, podemos constatar que na totalidade das civilizações das Américas, do Alasca à Patagônia, a prática dos sacrifícios animais foi uma constante. Incas, maias, astecas, nos seus períodos de franca decadência, recorreram também a oferendas humanas. Aliás, a prática sacrificial dos povos derrotados em guerra foi uma constante em quase todas as civilizações da Terra, inclusive dentre as diversas etnias do nosso atual Brasil.
O Yajurveda, um dos quatro Vedas, contém grande parte da liturgia e dos rituais necessários para a prática religiosa hindu, incluindo os ritos sacrificiais. No período de 1000 a 800 a.C., o Hinduísmo passou a basear seu sistema de crenças na constante necessidade de sacrifícios. A população podia consumir a carne apenas de animais abatidos por sacerdotes. Neste período surgiu no Hinduísmo o sistema de castas, o conceito de Carma, reencarnação e a concepção de que almas animais podiam evoluir até a condição humana.
Textos como o Ramayana e outros demonstram que os sacrifícios de animais eram comuns na prática religiosa hindu. Mais tarde, com o advento de novas concepções religiosas, os sacrifícios foram abandonados, em sua maior parte. Por não ser, no entanto, uma religião organizada, o Hinduísmo permite uma variedade de rituais nitidamente destoantes. Enquanto que na maior parte dos lugares os Templos abriguem animais desamparados e os devotos lhes ofereçam alimentos como parte de seu rito, em outras regiões cadáveres humanos expostos acabam sendo consumidos pelos mesmos animais por eles preservados.
Devido a profunda ignorância em que decaíram muitas concepções religiosas no seio das populações mais primitivas da Índia, de vez em quando ocorrem intervenções policiais detendo pessoas que tentam oferecer sacrifícios humanos, principalmente à deusa Kali.
É um ironia que, justamente na terra que, para todos os efeitos, prega o vegetarianismo e a não violência (embora seja, na prática, onde sangrentos distúrbios determinem a tônica política) degenerações desta ordem se manifestem.
Sacrifícios eram, e por vezes ainda são, também praticados no seio das antigas religiões da Ásia. Confúcio descreve a existência de sacrifícios na China do século VI a.C.
No Islam, o período de peregrinação à Mecca (Hajj) é marcado por um rito sacrificial denominado Eid-ul-Adha (comemoração do sacrifício). Este sacrifício lembra que Abraão esteve prestes a sacrificar seu filho (que, de acordo com a tradição muçulmana não era Isaac, mas Ismael) e, passando na prova de obediência a Deus, acaba oferecendo um animal surgido de repente mediante intervenção divina. Na peregrinação, quem tem condições leva um cabrito, uma cabra, uma ovelha, um camelo ou uma vaca, para serem sacrificados. A carne destes sacrifícios é compartilhada com a família e os amigos e um terço é dada aos pobres. Todos estes preceitos estão contidos na Surata Al-Hajj (o capítulo do Al-Corão que trata da peregrinação a Mecca).
No Al-Corão (22:37) está explicado que Deus não se beneficia da carne nem do sangue dos animais que são sacrificados, mas que a fé do devoto e sua boa intenção é que são considerados. O animal deve ser abatido tendo sua jugular cortada e seu sangue drenado. Não é permitido supliciar o animal. Só assim esta carne é considerada “halal” - própria para consumo.
O sacrifício animal sempre existiu entre os hebreus, muito antes da entrega da Torah (Lei recebida por Moysés no Monte Sinai). Caim e Abel, Abraão e filhos, Noé e família, todos ofereciam sacrifícios. Quando as leis de sacrifício foram entregues aos filhos de Israel na Torah, a pré existência de um sistema de oferta de sacrifício foi então regulamentado e praticado no Templo de Jerusalem. Esta prática foi interrompida no ano 70 da era atual, devido à destruição do Templo pelos romanos.
Como a Torah autoriza os rituais de sacrifício exclusivamente naquele local (Deut. 12:13-14), sòmente com a chegada do Messias e o conseqüente restabelecimento deste local de culto, os sacrifícios poderão ser retomados. Como o Judaísmo não reconhece poder centralizado, certa vez um grupo de rabinos emitiu parecer para a prática de sacrifícios em outro lugar e algumas comunidades retomaram esta prática em ocasiões específicas.
No entanto, a maioria baseou-se na Torah para se pronunciar contra e os sacrifícios rotineiros cessaram. Por enquanto os judeus realizam serviços de oração para a vinda do Messias, a restauração do Templo e o restabelecimento dos rituais que a Torah preconiza, incluindo os sacrifícios.
Os judeus procedem hoje o ritual de abate de animais para alimentação da mesma forma respeitosa com que realizavam os sacrifícios, com rezas e uma lâmina afiada que cause morte rápida e indolor.

Vamos encontrar na Lei judaica os três conceitos fundamentais subjacentes ao sacrifício (Korban) que norteiam as Leis de sacrifício também nas religiões africanas atuais : doação, substituição e louvor.
O primeiro aspecto é a doação: o sacrifício exige a renúncia de algo que de melhor pertence à pessoa que está ofertando. Assim , os sacrifícios são realizados com animais domésticos que sirvam para alimentação. Animais selvagens estão excluídos, por não constituírem patrimônio. Os objetos de sacrifício devem ser fisicamente perfeitos, sem marcas ou lesões, preferivelmente jovens e sadios.
Também a oferta de alimentos, na forma de cereias (minchá) e derivados, por exigirem trabalho / sacrifício no seu preparo. Representa a devoção dos frutos do trabalho do homem para o seu Criador, algo obtido e confeccionado através do seu próprio esforço. Dentro deste mesmo princípio há também a oferta de bebida (nesekh) .
O de substituição é a idéia de que o objeto que está sendo oferecido é um substituto para a pessoa que faz a oferta. A oferta substitui o ofertante em sistema de troca. Trata-se de um procedimento bem comum nos rituais de Magia.
O terceiro é a idéia de reverência e homenagem, com a finalidade de estabelecer aproximação com o Divino, como gesto de amor de gratidão. Esta oferenda, ao invés de ser consumida como alimento é completamente queimada no altar exterior, pois representa a completa submissão à vontade de Deus, expressando o desejo de comunhão com Ele.
Embora o Cristianismo, ao se estabelecer como religião, não tenha adotado sacrifícios animais como prática ritual, os cristãos primitivos, sem dúvida, praticavam sacrifícios no Templo de Jerusalém até a sua destruição.
Jesus e seus pais quando se dirigiram ao Templo (no conhecido episódio em que ele discutiu a Torah com os sacerdotes), para lá se encaminharam com a intenção de participar do ritual da páscoa (Pessach), que òbviamente incluía o oferecimento de um animal para sacrifício.
Há, no entanto, resquícios de práticas sacrificiais na tradição católica ibérica como podemos verificar na selvageria das touradas e nos “sacrifícios” humanos impostos pelo Santo Ofício, à título de expiação de pecados.
A teologia cristã estabeleceu que todos os sacrifícios teriam sido substituídos pelo sacrifício de Jesus na crucificação e a mera fé neste fato conduz o devoto à sua salvação. No entanto, o culto e a eucaristia são práticas que remontam ao sacrifício, representando o vinho o sangue e a hóstia a oferenda de carne ( no caso católico). O simples fato de Jesus ter sido considerado uma oferenda válida, demonstra, porém, que o Cristianismo aceita, teologicamente, a validade dos sacrifícios.
Com efeito, sem a idéia de que Jesus serviu como cordeiro sacrificial para expiar os pecados do mundo, o Cristianismo ficaria destituído do seu sentido de existência.

sábado, 10 de julho de 2010

ORUNMILÁ, PAI DO ORÁCULO SAGRADO

Conforme mencionado na postagem de 29/05/10, hoje retomaremos o tema “Orunmilá”. Orunmilá é o Orixá Senhor da sabedoria (ogbon) e do conhecimento (imo) , que tendo adquirido o direito de viver entre o orun (o além) e o aiyê (o mundo material) , tudo sabe e tudo vê na totalidade dos mundos. Por isso recebeu o título de gbaiye gborun : aquele que vive tanto no céu como na terra, transcendendo espaço e tempo.
Como testemunha da criação universal é chamado também de elerii ipin e detém o conhecimento do passado, presente e futuro do destino de todos os habitantes do aiyê e do orun em todas as dimensões cósmicas.
Na Terra, Orunmilá é quem apresenta o destino ao reencarnante por ocasião da sua concepção (kadara) e, mediante aceitação pelo livre arbítrio individual, libera o indivíduo para o ( re-) nascimento. Conhece todos os destinos e como propiciar o sucesso em todos os âmbitos, alem de revelar o Orixá pessoal de cada um, ou seja, a substância da qual cada um foi extraído na atual existência e como integrar o indivíduo a este princípio Divino.
Como a religião yorubá é totalmente baseada em mitos (itan) que constituem a literatura de Ifá, conta-se que,
" após permanecer na Terra por algum tempo, Orunmilá retornou ao orun, esticando uma longa corda pela qual ascendeu. Os seres humanos ficaram totalmente desorientados. O caos, a fome e a peste imperaram na Terra, já que ele era o porta-voz da vontade de Olodumare - a Suprema Divindade Universal. O ciclo de fertilidade das plantas e animais foi interrompido, trazendo ameaça de extinção. O clamor pela sua volta não foi atendido, mas deixou com seus filhos os 16 ikin (coquinhos de dendezeiro) , que se transformaram num importante instrumento de adivinhação denominado "ikin". Entregou os ikin instruindo que sempre que desejassem as coisas boas e realizações positivas na vida, deveriam consultar os coquinhos. Daí nasceu o sistema oracular denominado Ifá, que auxilia o ser humano na resolução dos seus problemas cotidianos, nos conflitos e nas dúvidas existenciais, como mediador entre o humano e o divino. Assim, Orunmilá é considerado o Pai do Oráculo."
Uma modalidade oracular mais simples é o ibo e a mais popular das três é o opele ifa. Apenas sacerdotes iniciados no culto de Orunmilá - os Oluwo e Babalawo – são credenciados para utilizar esses oráculos.
Os oráculos são baseados no sistema binário e comportam 256 combinações matemáticas que definem os caminhos de Odu, com seus milhares de itan (mitos) e owe (parábolas). Sua missão foi organizar as relações humanas, ajudar na doença, orientar nas contendas de todo tipo de assunto, valendo-se para isto dos itan relatados pelos Odu.
Todo o corpo filosófico da religião yoruba se resume nesses signos de Ifá – os Odu , que por sua vez se subdividem em caminhos com os respectivos itan, que são mitos de instrução, orientação e aconselhamento.
O nome de Orunmilá e o do sistema oracular opelê ifá muitas vezes se confundem e o culto a Orunmilá passou a ser conhecido como Ifá. Já o oráculo merindilogun – o popular jogo de búzios – mediante interferência do Orixá Exu, pertence a Oxun e pode ser consultado por sacerdotisas. No jogo de búzios utilizam-se 16 kawri (búzios) no qual respondem os 16 odu principais, num total de 70 caminhos e os orixás que respondem através deles. Independente da modalidade utilizada, para cada caminho há um itan a ser interpretado.
Na tradição religiosa yorubá, nada se empreende sem prévia consulta ao oráculo e todo procedimento ritualístico dele depende. Conforme informado anteriormente, o oráculo é a única opção autorizada e confiável quanto à definição do Orixá pessoal, responsável pela cabeça do ser humano.
Orunmilá é o interventor e defensor dos seres humanos, sempre tentando minorar os sofrimentos e dificuldades que enfrentam na saga das suas sucessivas existências na Terra.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

A DESCOBERTA DO BUDA - Acid

Gautama, o Buda, é a maior ruptura que a humanidade tem lembrança de ter conhecido até agora. O tempo não deveria ser dividido com o nome de Jesus Cristo; ele deveria ser dividido com o nome de Gautama, o Buda. Deveríamos dividir a história em antes de Buda e depois de Buda, não antes de Cristo e depois de Cristo, porque Cristo não é uma ruptura, é uma continuidade. Ele representa o passado em sua tremenda beleza e grandiosidade. Ele é a própria essência de toda a busca do homem antes dele. Ele é a fragrância de todo o empenho do homem para conhecer Deus, mas ele não é uma ruptura. No verdadeiro sentido da palavra, ele não é um rebelde. Buda é, mas Jesus parece mais rebelde do que Buda pela simples razão de que a rebelião de Jesus é visível e a rebelião de Buda é invisível.
Você precisará de um grande insight para compreender a contribuição de Buda para a consciência humana, para a evolução humana, para o crescimento humano.
O homem não seria o mesmo se Buda não tivesse existido. O homem teria sido o mesmo se Cristo não tivesse existido, se Krishna não tivesse existido - não haveria muita diferença. Elimine Buda e algo de tremenda importância fica perdido; mas sua rebelião é muitíssimo invisível, muitíssimo sutil.
Antes de Buda, a busca - a busca religiosa- dizia respeito, basicamente, a Deus:
um Deus que estava do lado de fora, um Deus que estava em algum lugar lá em cima, no céu.
A busca religiosa também dizia respeito a um objeto de desejo, tanto quanto era a busca mundana. O homem mundano buscava dinheiro, poder, prestígio; e o homem não-mundano buscava Deus, o céu, a eternidade, a verdade. Mas uma coisa havia em comum: ambos estavam olhando para fora de si mesmos, ambos eram extrovertidos.
Lembre-se dessa palavra, porque ela vai ser útil para você compreender Buda.
Antes de Buda, a busca religiosa não estava interessada no interior, mas no exterior. Ela era extrovertida e, quando a busca religiosa é extrovertida, ela não é religiosa. A religião começa somente com a introversão, quando você começa a cavar profundamente dentro de si mesmo.
As pessoas procuraram durante séculos por Deus: Quem é o construtor do universo? Quem é o criador do universo? E há muitos que ainda estão vivendo numa era pré-búdica, que ainda estão fazendo essas perguntas, "Quem é o criador do mundo? Quando ele criou o mundo?".
Há algumas pessoas estúpidas que até determinaram o dia, a data e o ano em que Deus criou o mundo. Há teólogos cristãos que dizem que exatamente há quatro mil e quatro anos antes de Jesus Cristo - segunda-feira, 1º de Janeiro! - Deus criou o mundo ou começou a criar o mundo; e ele terminou o trabalho no sexto dia. Uma só coisa é verdadeira quanto a isso: ele deve ter terminado o trabalho em seis dias, porque você pode ver a confusão em que o mundo está: trata-se de um trabalho de seis dias! E desde então, ninguém mais ouviu falar dele. No sétimo dia, ele descansou e, desde então, tem continuado a descansar...
Talvez Friedrich Nietzsche esteja certo, ele não está descansando: está morto! Ele não tem demonstrado nenhum interesse. Então, o que aconteceu com sua criação? Parece estar completamente esquecida. Mas os cristãos dizem: "Não, ele não se esqueceu. Olhe! Ele enviou Jesus Cristo, seu primogênito, para salvar o mundo. Ele ainda está interessado".
Esse foi o único interesse que ele demonstrou, enviando Jesus Cristo... mas o mundo não está salvo. Se esse era o propósito ao enviar Jesus Cristo ao mundo, então Jesus fracassou e, por tabela, Deus fracassou, o mundo é o mesmo. E que espécie de interesse era esse... seu mensageiro foi crucificado e Deus não conseguiu fazer nada?
Ainda há muitos vivendo nessa visão de mundo pré-búdica.
Buda mudou toda a dimensão religiosa, ele deu a ela uma virada tão linda! Ele fez perguntas verdadeiras. Ele não era metafísico, nunca fez perguntas metafísicas; para ele, a metafísica era pura tolice. Ele foi o primeiro psicólogo que o mundo conheceu, porque baseou sua religião não na filosofia, mas na psicologia. Psicologia, em seu significado original, quer dizer ciência da alma, a ciência do mundo interior.
Buda não perguntou quem criou o mundo. Ele perguntou: "Por que eu estou aqui? Quem sou eu? Quem está me criando?". E não se trata de uma questão do passado - quem me criou. Nós estamos sendo criados constantemente.
Nossa vida não é como uma coisa criada uma vez e para sempre: ela não é um objeto. Ela é um fenômeno crescente, é um rio fluindo. A cada momento, ela está passando através de um novo território. "Quem está criando a vida, esta energia, esta mente, este corpo, esta consciência que sou eu"? Seu questionamento é totalmente diferente. Ele está transformando a religião da extroversão para a introversão.
A religião extrovertida roga a Deus; a religião introvertida medita. Oração é extroversão; é dirigida a algum Deus invisível. Ele pode estar lá, pode não estar - você não está seguro -, não tem certeza; a dúvida vai persistir, fatalmente. Desse modo, toda oração está enraizada, de um modo ou de outro, na dúvida, no medo, na incerteza, na ambição. A meditação está enraizada no destemor, na desambição. A meditação não está mendigando nada de ninguém, ela não é endereçada a ninguém. Meditação é um estado de silêncio interior.
Oração ainda é barulho, você ainda está falando, falando a um Deus que pode não estar lá. Então, ela é insana, neurótica: você está se comportando como um louco. Pessoas loucas ficam falando; não se importam muito se há alguém para ouvi-las ou não. Esse é um sinal seguro de que elas são loucas: imaginam que alguém está ali; não apenas isso, elas quase podem ver o outro. A visualização delas é ótima, a imaginação é muito substancial. Elas são capazes de transformar sombras em substância, imaginação em realidades, ficção em fatos. Para você, elas parecem estar envolvidas num monólogo; para elas mesmas, elas estão envolvidas num diálogo. Você não pode ver quem está presente ali, elas estão sozinhas. Mas elas vêem que alguém está presente.
É devido a esse fato que a psicanálise é muito cautelosa quanto à religião, porque a pessoa religiosa se comporta exatamente como o neurótico. E há muitos psicanalistas que acham que religião nada mais é que uma neurose de massa, e eles são da seguinte opinião: a religião extrovertida é uma neurose de massa.
Buda transformou toda a questão religiosa da metafísica numa grande psicologia, porque ele perguntou: "Quais são as causas da minha vida e da minha morte"? Ele não está interessado no universo. Ele diz: "Temos de começar pelo começo; e qualquer coisa, para ter um sentido de verdade na vida, tem de dizer respeito a mim mesmo: Quem sou eu e por que eu sou? Quais são as causas que continuam me criando"?
Gautama, o Buda, não é o único buda na história do mundo: milhares de budas vivem e já viveram no mundo, em diferentes partes do mundo. Eles podem não ser conhecidos como "budas", mas "buda" simplesmente significa "o desperto".
A palavra "buda" simplesmente quer dizer "o desperto". Esse não era o nome dele. Seu nome era Gautama Sidarta. Quando ele se tornou iluminado, aqueles que compreenderam sua iluminação começaram a chamá-lo de Gautama, o Buda.
Mas a palavra "buda", de acordo também com Gautama, o Buda, é simplesmente inerente a todo ser humano, e não somente a todo ser humano, mas a todo ser vivo. É a qualidade intrínseca de todo mundo.
Todo mundo tem direito, por nascimento, de tornar-se um buda. Qualquer pessoa desperta, em qualquer lugar do mundo, tem o direito de ser chamado de "buda". Gautama, o Buda, é somente um dos milhões de budas que aconteceram e que acontecerão.
A única qualidade que o buda tem, no centro do seu ser, é a observação, o testemunhar. Testemunhar é o todo da espiritualidade resumido numa única palavra. Testemunhe que você não é o corpo, testemunhe que você não é a mente e testemunhe que você é somente a testemunha. Apenas um espelho refletindo -sem nenhum julgamento, sem nenhuma apreciação, sem nenhuma condenação- espelho puro. Eis o que o buda é.
Ser um buda não é ser budista. O budista é um seguidor, o buda sabe. No momento em que você conhece sua própria condição de buda, você conhece todos os budas, a experiência é a mesma.