ÁGUIA DOURADA

ÁGUIA  DOURADA

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quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

AS ORIGENS HISTÓRICAS DO NATAL

No período anterior aos dois últimos milênios, grande parte das civilizações desde a Ásia, passando pelo Egito, todo o Mediterrâneo, Europa, até a atual América do Norte, festejava o novo ciclo do Sol como sendo o acontecimento mais importante da Terra. O chamado solstício de inverno (no hemisfério norte) acontece anualmente no período que varia entre 17 e 25 de dezembro, dependendo do ciclo solar de cada ano, quando o sol ingressa no signo de capricórnio.
Nas arcaicas culturas solares, o solstício de inverno, marcando a mais longa noite e o mais curto dia do ano - a partir de quando a duração do dia começa a aumentar - simbolizava o início da vitória da luz sobre a escuridão.
A mitologia hindu-iraniana fala do Sol como “sol vencedor” e, representando a Luz, era associado ao deus Mithra. Representava também o Bem e a libertação da matéria. Junto aos persas, Mithra nasce como filho de Ahura-Mazda, Deus do Bem, segundo as imagens dos templos e os escassos testemunhos escritos que não foram queimados. O culto era celebrado em grutas sagradas e após a vitória de Alexandre sobre os persas, o culto a Mithra se propagou por todo o mundo grego.
A partir do século II, o Mithraismo passa a ser um dos cultos mais importantes no Império Romano, que o incorporou como “sol invictus” e em sua honra, numerosos santuários foram construídos, a maior parte em câmaras subterrâneas.


Roma sempre se caracterizou pela liberdade religiosa, mas isto acabaria se tornando um problema para os planos de expansão e dominação, pois as revoltas regionais baseavam-se nas diferentes identidades religiosas das províncias. Assim, o imperador Constantino, decidido a criar uma ideologia suficientemente forte para manter coesas as províncias romanas, optou pelo nascente e ainda não organizado Cristianismo, que por ser uma doutrina dotada de forte caráter repressivo, poderia se adequar aos seus objetivos.
Constantino oficializou sua conversão oficial ao Cristianismo, justificada em torno de uma lenda e, no ano de 325, convocou um concílio em Nicéia, com a finalidade de estabelecer normas de apoio ao seu projeto de expansão e solidificação do Império. Os membros do concílio realizaram adulterações e adaptações no Cristianismo então praticado, acrescentando à personalidade de Jesus diversos elementos e mitos pagãos.
Dentre as dezenas de relatos – denominados Evangelhos - selecionaram quatro narrativas que, após adaptações que evitassem contradições, foram decretadas incontestáveis. Os demais foram considerados “apócrifos” e, portanto, proibidos. Quem neles acreditasse ou preservasse seria condenado à pena de morte. Outro ponto importante foi a total descaracterização de Jesus como judeu e a ênfase numa suposta culpa do povo judeu na sua condenação e morte. Este aspecto acompanharia o cristianismo através dos milênios, gerando e apoiando o antissemitismo em todas as suas nuances, justificando a perseguição e a conversão forçada.
Em 336 o Cristianismo foi decretado religião oficial de todo o Império Romano, tornando todas as outras ilegais. Se até então, Roma era uma potência mais preocupada com o recolhimento de impostos nos territórios ocupados, deixando que os povos praticassem livremente as respectivas religiões, com o imperador Constantino tornou-se um império religioso, sediando a Igreja Católica Apostólica Romana.
No entanto, como os povos não esqueciam e prosseguiam praticando culto as suas Divindades ligadas à Natureza, a Igreja passou a fazer coincidir as datas dos festejos cristãos àquelas das efemérides astrológicas. O calendário oficial também começaria a ser modificado. As festas associadas aos Deuses de todas as culturas arcaicas começaram a ser cristianizadas onde quer que se manifestassem.  Ao mesmo tempo em que se tentava destruir a memória ancestral, embutiam seus símbolos e significados no Cristianismo, a religião oficial do Império, criada e adotada para atender seus interesses políticos.

Tomando por molde alguns significados místicos e mitologias sagradas legadas pelas antigas civilizações, os diversos concílios construiram as bases de sustentação para o que hoje se conhece por Cristianismo.
Incorporando essas tradições milenares, possibilitou que fossem adotados como originais os hoje conhecidos relatos sobre o nascimento virginal numa caverna, vida repleta de milagres, morte e ressurreição da sua divindade principal e única: Jesus.
A simbologia do nascimento da Luz na sempre Virgem Mãe Terra, dos Seres Divinos que junto a nós operavam curas e milagres foram recolhidas e readaptadas com o intuito de escrever a sua própria história, formatando uma nova religião, que deveria ser única para todo o Império – e, quiçá, para o mundo inteiro.
A imposição do Cristianismo resultou num banho de sangue que “lavou” a Europa, norte da África, Oriente Médio e Américas, sempre servindo aos interesses políticos no decorrer da sua História. Com o édito do imperador Teodósio, todos os cultos pagãos foram proibidos e demonizados, passíveis de pena de morte. Com a queda do Império Romano, a Igreja Católica manteve as estruturas políticas e militares do Estado sob seu controle. Agora ela passaria a desenhar a Europa medieval à sua imagem e semelhança, implantando o feudalismo, à medida que convertia reis e nobres, mediante guerras e violência ou simplesmente baseada em conchavos. A “idade das trevas” estava instalada e, com as grandes navegações, atingiu o continente americano. Assim, o Cristianismo foi implantado sob pretexto de “civilizar” as culturas nativas, saqueando e submetendo os povos à sua sanha “salvadora”.
Como o nascimento de Mithra era celebrado em 25 dezembro, a Igreja Católica, com a intenção de abolir os cultos pagãos - e na ausência de registros históricos sobre o nascimento de Jesus - passou a adotar várias datas e firmou-se no 25 de dezembro, data de comemoração do “sol vencedor”, como o dia do seu nascimento.
Assim, as celebrações do nascimento do Sol, o filho da Luz, esvaziaram-se do seu real significado e foram substituídas pela festa que receberia o nome de Natal, coincidindo com o solstício de inverno no hemisfério norte.


Desta forma, a data de 25 de dezembro, destituída do seu simbolismo milenar, passou a assinalar a comemoração máxima do mundo cristão.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

100 ANOS DE UMBANDA

Em decorrência de suas raízes, a Umbanda é fruto do amálgama de elementos provenientes das diversas crenças e práticas religiosas que contribuiram para uma formação cultural-religiosa que se pode designar genuinamente brasileira. Brasileira e mestiça , pois desenvolveu-se e consolidou-se através da fusão de cultos afroameríndios e da espiritualidade popular de origem ibérica. Tem apresentado, no decorrer de um século de existência, um conjunto dinâmico e pleno de ramificações, com uma liturgia pluralista e eclética.
Sem ser fundamentada numa teologia específica, sem ter tido um fundador, não está atrelada a uma codificação que lhe unifique o ritual e possibilite uma estruturação oficial.
A Umbanda é um organismo vivo, livre de dogmas, absorvendo influências e, por sua vez, influenciando.

Raízes
As raízes da Umbanda resultam da fusão dos cultos das diversas etnias africanas com a Pajelança, o Catimbó, o Espiritismo e o Catolicismo. Como não dispõe, a exemplo das religiões formalizadas, de um sistema filosófico -doutrinário ou liturgia unificados, o grau de importância destas influências variam de acordo com a região ou até mesmo as afinidades espirituais do líder local.
O Catolicismo está presente em todas as formas de cultos nascidos no Brasil, uma vez que, desde a sua implantação à época do descobrimento até as primeiras décadas do séc. XX, a sua influência era tal que seria pràticamente 
impensável alguém ser brasileiro e não ser católico. O Catolicismo era a religião hegemônica e então a única verdadeiramente reconhecida como tal, em solo brasileiro.
Durante quase quatro séculos, africanos aqui se estabeleceram como escravos.
Ao longo deste tempo, inúmeras etnias com idiomas e culturas milenares bastante diferentes entre si, aqui chegaram, predominando, até o séc. XVIII, grupos de bantos e posteriormente de sudaneses. Nas últimas décadas do
regime escravista, os sudaneses (yorubás) preponderavam na população negra da Bahia, a ponto da sua língua acabar prevalecendo em relação as demais. Embora dispersados de seus grupos de origem, começaram a se organizar, buscando a preservação das suas tradições religiosas, formando o que hoje se entende por religião afro-brasileira: Candomblé na Bahia, Batuque no Rio Grande do Sul, Tambor de Mina no Maranhão, Xangô em Pernambuco.
Na esfera das religiões afro-brasileiras, a contribuição banto foi fundamental, pois sob sua influencia formou-se o Candomblé de Caboclo e outras variantes regionais de culto ao antepassado indígena, como o Catimbó, que contribuiram
para a formação da Umbanda.
A influência ameríndia se deu a princípio no âmbito da convivência entre “negros da terra” e “negros da Guiné” nos povoados onde eram confinados e, posteriormente, quando escravos foragidos buscavam abrigo junto aos índios,
encontrando semelhanças e paralelos para as suas crenças e tomando emprestado material que substituisse o normalmente usado nas suas práticas religiosas. Assim, na fusão de crenças e magias, a mesclagem de costumes
gerou novas alterações.
Onde quer que se organizassem grupos de culto às divindades africanas havia também uma tendência ao culto dos antepassados, na condição de espíritos de pessoas desencarnadas, sendo este ligado igualmente ao universo indígena ou ibérico. Esta tendência encontrou reforço quando da difusão da Doutrina Espírita no Brasil, por volta de 1873 . O Espiritismo teve boa recepção junto a uma elite mais culta e assim, toda esta mescla afro-ameríndia fundamentada no culto aos antepassados e crença na reencarnação encontrou um denominador comum que acabou influenciando os círculos que, até então, pelo menos perante o censo, se declaravam católicos.
A influência do Espiritismo conferiu à Umbanda o seu perfil ideológico. A falta de afinidade com o modelo austero e repressor do Catolicismo propiciou terreno fértil para a disseminação dos ideais éticos da doutrina de Allan Kardec
(1804 -1869) através da prática abnegada da caridade e da crença na reencarnação . Como no Espiritismo, também na Umbanda a incorporação tem por função possibilitar que espíritos venham à Terra trabalhar em prol da humanidade. Os fenômenos da mediunidade e a invocação de espíritos
tornaram-se, à partir daí, bastante populares em todas as regiões do Brasil.
No Nordeste os espíritos eram denominados Mestres e tanto podiam ser de índios como de mestiços ou brancos. Se das práticas religiosas indígenas herdaram o uso do tabaco, bem como a ingestão cerimonial da beberagem Jurema, por outro lado, dos africanos adotaram o uso das folhas como
defumação ou sob a forma de banhos.
Já no Maranhão e no Pará, as práticas religiosas são mais ligadas aos espíritos de encantados, ou seja, seres de outros reinos da natureza, pertencentes a hierarquias diferentes da humana. Aliás, se na Amazônia encontramos botos que se transformam em pessoas, esta tradição de encantaria já estava presente também na cultura européia, com suas fadas, bruxas, príncipes e animais fantásticos.
Sendo o sincretismo a combinação de dois ou mais sistemas religiosos gerando um terceiro, a Umbanda é sincrética por excelência, uma vez que mescla culturas distintas a ponto de gerar um culto próprio, com matizes diversificados, mas mantendo uma concepção doutrinária comum. Embora não
disponha de uma literatura oficial como fonte de estudos, conta, por outro lado, com um rico cancioneiro destinado a invocar e saudar as entidades, conhecidos como pontos ou curimbas.
Dependendo do local, encontramos ramificações onde podemos identificar diferenciadas influências indígenas (Umbanda de Caboclo), Espíritas (Umbanda Branca), Africanas (Omolokô, Umbanda Traçada) e diversas outras
de cunho esotérico nìtidamente influenciada pelas tendências da Nova Era (Umbanda Esotérica).
Oficialmente considera-se 1908 como o ano da criação da Umbanda, quando Zélio Fernandino de Moraes incorporou na cidade de Niterói, no Estado do Rio de Janeiro, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, proclamando as regras básicas
de uma nova seita que acabaria sendo institucionalizada como religião. À partir daí, uma profusão de terreiros surgiu, seguindo as mais diversas orientações e tendências locais.
Embora o significado do próprio termo Umbanda se preste hoje até a especulações esotéricas ligadas a mantras hindus ou uma suposta raiz atlante, na realidade teve sua origem nos quilombos.
Como cada quilombo seguia o culto que preponderava nas etnias africanas que o constituiam, era usual, no encontro de negros procedentes de quilombos diferentes, que se indagasse qual era a sua “ banda” – ou seja, a que nação
pertenciam. Uma vez absorvidos elementos de outras proveniências, no Rio de Janeiro do início do século XX, muitos terreiros simplificaram ou aboliram as práticas ritualísticas africanas, passando cada um a ser identificado de acordo com a sua “ banda”. Aí se consolidou a demarcação clara entre as práticas ligadas às nações africanas – hoje conhecidas como Candomblé – e as
“ bandas”. Assim nasceu o termo “ umbanda”.
Em meados do século XX a Umbanda sofreu mais uma absorção sincrética, desta vez decorrente da influência do ocultismo oriental divulgado pela contracultura da década de 60. Inspirada nestes ensinamentos e também no estudo da Teosofia, surgiu a Umbanda Esotérica.




Transe e Mediunidade
Todas as formas de culto nascidas no Brasil que resultaram numa religião cabocla, não se caracterizam pela regulamentação moral ou pela simples
adoração, mas pelo transe. As entidades cultuadas ou mesmo os espíritos de desencarnados encontram o seu ponto culminante de atuação na manifestação mediúnica.
Enquanto na religião africana pura o medium entra em transe sem uma finalidade prática, mas apenas para poder vivenciar uma catarse, incorporando uma centelha ínfima do Orixá de onde provém a sua essência , na Umbanda essas incorporações ocorrem com finalidade mágico-curativa e de
aconselhamento.
Nos cultos das nações africanas todo procedimento e aconselhamento individual é determinado pela consulta ao oráculo, considerado o único instrumento legítimo e capaz de transmitir as instruções da Divindade. Como esta consulta não depende de intuição ou mediunidade, mas de uma
preparação sacerdotal complexa de natureza iniciática da qual as religiões caboclas e a Umbanda não dispunham, esta prática passou a ser suprida pela consulta oral às entidades incorporadas nos médiums, tornando a incorporação o elemento primordial, a razão de ser, da Umbanda.
Então, todos os procedimentos de limpeza áurica,
reequilíbrio energético ou espiritual que na religião africana são realizados pelo sacerdote, na Umbanda ficam à cargo do médium, incorporado ou não, que deverá captar e dissipar a energia negativa que estiver prejudicando o consulente. No caso de um obsessor, normalmente é incorporado pelo médium e encaminhado para doutrinação através de procedimento bastante semelhante ao adotado pelo Espiritismo.

Os Orixás
Embora não haja, na Umbanda, uma concepção oficial e padronizada, as divindades africanas da natureza denominadas Orixás ocupam um papel fundamental e há uma tendência quase geral de se antropomorfizá-los.
Os séculos de perseguição religiosa forçaram uma assimilação entre os santos católicos e os Orixás, como estratagema para encobrir a verdadeira devoção dos negros.
Embora a liberdade de crença tenha sido instituida por ocasião da proclamação da República, sob o pretexto das sessões serem barulhentas, gerarem conflitos e desordens, até 1934 – quando conseguiram atuar livremente - era
costume policiais invadirem os locais onde se celebravam cultos africanos, agredindo as pessoas e levando-as a prisão. Sem dúvida, os séculos de perseguição religiosa, de preconceito e de sincretismo de Orixás com santos católicos acabou levando muitos negros a aceitarem a evangelização com sinceridade e deste expediente consolidou-se no Brasil o que podemos identificar como Catolicismo Popular: com suas benzeduras, superstições, rezas, simpatias e outras práticas nada ortodoxas aos olhos do Catolicismo oficial ditado pelo Vaticano.
A presença dos Orixás, constante em todas as vertentes praticadas pela Umbanda, torna-se portanto o ponto comum mais marcante, estabelecendo assim um vínculo muito profundo com a religiosidade africana. Embora algumas particularidades desta devoção estejam, de acordo com as tradições africanas, corretas, não se pode considerar que a Umbanda pratique verdadeiramente um culto aos Orixás.
Segundo a concepção yorubá, que é predominante no Brasil e conhecida como Ketu ou Nagô, os Orixás são energia pura e expressão das facetas múltiplas da Divindade Suprema ( Olodumare / Olorun ). São divindades primordiais que
estiveram presentes na formação do planeta Terra e presidem, até hoje, as atividades dos diversos reinos da natureza. São um componente dessas forças e estabelecem também uma espécie de elo entre a humanidade e o Ser
Supremo – já que cada ser humano é, energèticamente, proveniente desses elementos vitais.
Como entidades pertencentes a uma hierarquia não humana, não compartilham conosco a capacidade de verbalização e a forma de cultuá-los é ùnicamente através do ativamento e direcionamento das suas energias
particulares. Isto tem a ver com a manipulação de energia que se chama magia e não com atividades educativas ligadas a orientação ou doutrinação.
Já os Orixás assimilados pela Umbanda são freqüente e errôneamente concebidos como espíritos ligados aos diversos elementos da natureza que, já liberados do processo reencarnatório, dariam continuidade a sua evolução espiritual, mediante a missão de organizar e orientar uma legião de espíritos menos adiantados. Cada pessoa estaria ligada a um ou mais desses Orixás e
suas características, deles recebendo proteção e auxílio.
Por conta do sincretismo , costuma-se , na Umbanda, associar um Orixá à imagem de algum santo católico. No entanto, Ogun não é São Jorge , Iansã não é Santa Bárbara e tampouco Yemanjá encarnou no corpo da Virgem Maria,
mãe de Jesus. Esses personagens históricos jamais poderiam, dentro da limitação da sua condição humana, atingir a dimensão de uma manifestação Divina como é o Orixá. Então, quando um médium de Umbanda incorpora uma entidade que utiliza o nome do Orixá, está , na verdade, incorporando não o Orixá, mas um caboclo ou preto-velho que se manifesta dentro desta faixa vibratória.
Assim, podemos verificar que a Umbanda concebe uma hierarquia que, abaixo de Deus Supremo , denominado Olorun ou Olodumare (yorubá) ou Zambi (banto) é seguido por Jesus Cristo, identificado com o Orixá Oxalá, que
compartilharia com Deus a criação do planeta Terra (concepção da doutrina espírita). Como a tradição africana considera Oxalá como o próprio Sol doador da Vida, não poderia ser identificado com um ser humano, por mais evoluído que seja.
Na Umbanda os Orixás são submetidos a Jesus e, por sua vez, chefiam as Linhas onde, subdivididos em falanges, atuam como guias ou protetores os caboclos, pretos-velhos e crianças, além de vários segmentos de exús. As falanges de caboclos assumiram uma importância decisiva, constituindo, na maioria das vezes, a chefia da Casa. Os pretos-velhos destacaram-se na função de psicólogos, sempre prontos a escutar, aconselhar e resolver problemas, principalmente de saúde. Outras representações míticas dos tipos regionais surgiram, como desdobramento dos 
caboclos: os boiadeiros e os marinheiros. O boiadeiro, sertanejo valente, símbolo de resistência e determinação e o aventureiro marinheiro, com sua capacidade de adaptação
diante de qualquer mudança. As crianças, englobadas na falange dos infantes católicos Cosme e Damião representando a inocência e a alegria do ser humano em seu estado puro, atuam igualmente eficientes na resolução de problemas através de aparentes brincadeiras.
Cabe ressaltar que caboclos não se tratam, necessàriamente, de índios desencarnados e tampouco pretos-velhos foram escravos negros. Humanos ou não, são padrões vibratórios arquetípicos, cada tipo representando um diferente estilo de ser da nossa identidade mestiça e um modelo de conduta.

As Linhas
Linhas são faixas de vibração correspondentes a um determinado elemento da natureza.
A Umbanda clássica considera sete linhas:
1.Oxalá - 2. Yemanjá - 3. Oriente - 4. Oxossi - 5. Xangô - 6. Ogun - 7. Africana
Já a Umbanda esotérica comporta as seguintes :
1. Ogun - 2. Xangô - 3. Oxossi - 4.Yemanjá - 5. Yori - 6.Yorimá - 7. Oxalá
Com isto, Orixás e caboclos se mesclam, estabelecendo uma quebra de hierarquia incompatível com a concepção original de Orixá, colocando todos, juntamente com caboclos (encantados da natureza, na grande maioria não humanos)
e pretos-velhos (humanos desencarnados) pràticamente no mesmo patamar.
Por outro lado, submetem sereias (Yara e Janaína) e Orixás (Nanã, Iansã e Oxum) à chefia de Yemanjá.
Sem pretender julgar os motivos de tal arranjo, o fato é que esta miscelânea confusa em nada contribui para uma compreensão básica do que vem a ser esta raiz fundamental que é o Orixá, divindade africana da natureza.
Além dessas há também, como algo independente ou por vezes colocada em lugar da Linha do Oriente, mais voltada para a cura de males físicos, a Linha de Exu.
Muitas vezes se misturam e confundem desencarnados, mestres do Catimbó e o Orixá Omolu.
Seja como for, respeitando a liberdade que cada Casa de culto tem o direito de tomar, o fato é que tais entidades que ali se apresentam sob o nome de Exu, algumas realizando feitos extraordinários e a maioria assumindo linguagem
vulgar, tomando atitudes desrespeitosas e incompatíveis com qualquer prática religiosa séria, muito distante estão do Orixá Exu que lhes empresta o nome.
Como no caso dos Orixás, não é Exu quem incorpora nos médiums, mas desencarnados das mais variadas origens e estirpes espirituais, ainda demasiadamente apegados ao plano material.

Exu
O real conhecimento do Orixá Exu foi o que mais se deturpou e pràticamente perdeu no decorrer das décadas.
A concepção cristã de um mundo maniqueísta que se movimenta entre o certo e o errado, o bem e o mal, trouxe consigo a face inconfessa da “ sombra”, reprimida e personificada igualmente segundo o modelo do diabo cristão.
Da mesma forma como haviam anteriormente sincretizado os Orixás com santos católicos, associaram este personagem satânico – inexistente na mentalidade e no panteão africano - ao Orixá Exu, chegando a representa-lo
com chifres e tridente. Através dele puderam extravasar as práticas anti-sociais e as atividades marginais de moralidade questionável.
Personagens transgressores mas altamente benquistos pela sua simpatia tìpicamente humana, esses exus e seus equivalentes femininos, as pombagiras, atuam nos âmbitos que lhes são afins. São capazes de resolver com rapidez e eficiência as mais intrincadas questões ligadas, principalmente, aos aspectos financeiro e sentimental, como também os casos de desobsessão que envolvem o acesso a planos espirituais densos.
Na realidade, o panteão umbandista de exus e pomba-giras, composto de desencarnados comuns, vem redimir os tipos sociais normalmente rejeitados e marginalizados. Houve também uma absorção de outros tipos regionais, como o mestre do Catimbó, Zé Pelintra, a mestra da Jurema, Maria Padilha, e malandros da boemia carioca para a linha de Exu na Umbanda.
Com o acesso e popularização de práticas mágicas estranhas à cultura brasileira que se deu no final do século XX, até entidades do restrito e particular universo cigano passaram também a integrar as falanges de exus e,
principalmente de pomba-giras.
Se, por um lado, há na Umbanda o compromisso do trabalho pelo aprimoramento espiritual das entidades e consulentes, neste mundo subterrâneo das “ giras “ de Exu não há limitações éticas e os desejos de sua vasta e entusiasmada clientela são atendidos e legitimados pelo fato das referidas entidades terem sido “ batizadas” e, portanto, ali se encontrarem trabalhando em missão de caráter evolutivo.

Considerações Finais
Das suas matrizes africana e ameríndia a Umbanda herdou o senso de liberdade e respeito às diferenças, exercendo o respeito ao próximo e a convivencia pacífica com todos os credos religiosos.
Como negros e índios, não adota a prática do proselitismo tão difundida entre os cristãos que, sob o pretexto de melhor saber o que mais convém ao próximo, tantos assassinatos e sofrimentos semeou na história da humanidade.
Por outro lado, devido à organização doméstica dos terreiros e a prioridade que se confere ao exercício da caridade pura e simples, em detrimento de uma estrutura que lhe provenha meios de subsistência e desenvolvimento , a prática da Umbanda permanece marginal, idealista e, de certa forma, improvisada.
Calcada na máxima da Doutrina Espírita “dai de graça o que de graça recebeste” , absorvida do próprio Espiritismo, vai sendo desprestigiada e perdendo terreno para religiões que, embora muito pouco tenham a oferecer em termos de conexão com o Divino, adquirem maior visibilidade através de sensacionalistas manobras de marketing. Se a mediunidade é um dom gratuito, toda a estrutura material que sustenta o funcionamento de uma Casa religiosa tem custos que não podem ser supridos apenas com doações voluntárias e, por vêzes, exporádicas de - nem sempre -
gratos freqüentadores.
A difusão de conhecimento é cara. Os médiums têm gastos e desgastes que, não raro, acabam afetando o seu cotidiano e a sua saúde. Seria muito simplicista atribuir percalços mal sucedidos a um necessário resgate cármico.
Embora haja a versão segundo a qual os mentores espirituais tenham determinado que o período entre 1979 e 2049 seria de afirmação doutrinária e expansão da Umbanda, não se consegue ainda detectar qualquer estratégia neste sentido.
Mesmo assim, sob o aspecto cultural, uma prova da plena vitalidade da Umbanda está na efervescência com que ainda absorve influências. Podemos destacar, como exemplo restrito mas significativo, a introdução da bebida sagrada de origem xamânica, Daime, nas giras de Umbanda de alguns
terreiros cujos membros pertencem a esta doutrina. Surge aí, talvez, uma nova vertente cujos desdobramentos ainda não podemos vislumbrar.
Cabe ao futuro definir o papel que a Umbanda exercerá no seu próximo século de atuação.