ÁGUIA DOURADA

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quarta-feira, 9 de julho de 2014

A IMPECABILIDADE DA PALAVRA


A linguagem verbal, como manifestação do pensamento racional, é o principal instrumento de comunicação da mente humana. Instrumento que, devido a conotações subjetivas dá origem a mal-entendidos, mas, ainda assim, tem sido extremamente útil como expressão do conhecimento.
A existência de uma suposta “palavra de Deus” é uma consideração bem recente na História da humanidade. Embora os Vedas sejam reverenciados como uma escritura sagrada, ninguém considera que tenham saído, literalmente, da “boca” divina. O verdadeiro livro Divino, dada a extrema complexidade não linear da Manifestação Universal, não caberia nas limitações da comunicação verbal. Sua linguagem é simbólica. O “livro” é a própria Natureza Cósmica.

Na área devocional o ser humano tem, desde sempre, se utilizado da palavra para melhor canalizar e expressar suas emoções, chegando ao ponto de  materializa-las com mais eficiência. Bênçãos e pragas pertencem a todas as culturas.
A vivência comprova que, quando focalizamos nossa mente em algo, e a isto somamos o sentimento e a emoção para finalmente expressá-lo verbalmente, estamos exteriorizando e materializando um Poder capaz de afetar a dimensão material densa.

As tradições espirituais do Hinduísmo e do Budismo utilizam mantras como técnica meditativa para alcançar determinados estados mentais. Já a yorubá, que tem suas raízes na mais remota antiguidade e foi, até os últimos séculos, exclusivamente oral, utiliza três modalidades principais que poderíamos denominar genericamente “rezas”:  Oriki (invocação),  Adura (louvação) e Ofó (encantamento).
A intenção dos Oriki e Adura é facilitar a conexão com o Divino. O Ofó direciona uma intenção. Considerando a boca um dos mais potentes transmissores de energia, o Ofó pronunciado e acrescido de elementos de magia dos diversos elementos da Natureza tem grande poder de concretização.  

Diante da energia liberada em cada palavra que pronunciamos, podemos nos conscientizar de que elas afetam não só a quem as dirigimos, como também a nós mesmos. Alguns psicólogos chegam a afirmar que “tudo o que dizemos aos outros, primeiramente estamos dizendo a nós mesmos”.
Em decorrência desse enorme Poder, é importante essa conscientização da influência da palavra tanto para o Bem como para o Mal, pois pode se tornar um veículo de Justiça ou de Manipulação. Promove tanto a Conciliação quanto alimenta o Conflito.
Expressão do nosso livre arbítrio, ela é capaz se mudar nosso destino e o de nações inteiras.


Na esfera cotidiana podemos considerar a mente  como um terreno fértil onde sementes são plantadas continuamente. O seu desabrochar só depende de nós.
Segundo os estudos de Eric Berne que geraram a Análise Transacional, o estado de consciência denominado Ego Pai é formado a partir das primeiras influências de pais/cuidadores da criança não só através de gestos e atitudes, mas grande parte também através de normas, valores, conceitos, regras e programas de conduta expressados verbalmente. Assim se formam opiniões, ideias e (pré)-conceitos emitidos e replicados ad infinitum. A pessoa acaba – sem refletir se naquilo acredita ou não – repetindo o que, durante anos, ouviu.
No decorrer da vida, palavras capazes de captar nossa atenção vão nos influenciando, podem alterar nosso posicionamento no mundo e também influenciar outros.



Daí a proposta de praticarmos a Impecabilidade da Palavra.
         
Impecabilidade é ser coerente perante a Verdade do seu coração.
É ter a idoneidade de assumir a responsabilidade por todos os atos, sem se julgar ou culpar, sem atribuir culpa a outras pessoas ou a fatores externos. Ser impecável é amar e respeitar a si próprio, pois a auto-rejeição significa a destruição da própria vida.

“Ser impecável com a própria palavra é empregar corretamente a sua energia e usá-la na direção da verdade e do amor por você mesmo” – Don Miguel Ruiz – Os Quatro Compromissos


Portanto, ser impecável com a palavra significa, em primeiro lugar, não revertê-la contra si mesmo. Se a palavra ofensiva contra mim chega ao ponto de me ofender, é porque me identifico emocionalmente com ela. Estou dando crédito e me envenenando com essa energia. Da mesma forma, se me deixo empolgar com elogios que me envaidecem, mas que, na verdade, bem sei que são desproporcionais e  não  correspondem a realidade que só eu conheço. Há que ter cuidado com as palavras alheias para que não se incorporem ao nosso sistema de crenças.


Por ser tão difícil limpar o veneno emocional de toda uma vida programada pela insegurança e pela auto-rejeição, a Ayahuasca pode ser um valioso instrumento de trabalho para uma clara autoanálise. Se existir, evidentemente, o desejo sincero de se entregar a essa empreitada.

Desde que aprende a falar, o ser humano utiliza as palavras exaustivamente, falando por falar, na maioria das vezes dizendo coisas sem significado e importância. Apenas pelo gosto de não precisar se confrontar com o seu tagarelar mental e não se sentir sozinho consigo mesmo, confrontando-se com um vazio que lhe parece sem sentido.
Então entrega-se a um passatempo que vai do inútil “jogar conversa fora” até a nociva fofoca. Disseminar informações cuja veracidade não podemos comprovar ou, pior, que absolutamente nada acrescentam em benefício de quem quer que seja, é uma das piores formas de envenenamento mental através da palavra. Envenena também porque influencia, com a palavra descuidada e leviana, a opinião de terceiros. Conquistar a opinião de terceiros significa o apoio para o próprio ponto de vista que nos confere a ilusão de engrandecimento e poder.

Por vezes, o inconsciente mau uso da palavra reflete um inconfessável sentimento compensatório de constatar que “... mas... no fundo, Fulano tem /é tudo isso mas se sente tão mal quanto eu”. Pode ocorrer que, não só a fofoca como até uma observação sobre alguém de quem supomos gostar, encerra subliminarmente o “consolo” de uma flecha envenenada e maldosa : - “sim, Fulano é maravilhoso e bem sucedido, mas, que pena” ...   ... e aí solta, como que lamentando, o comentário desabonador.
Conforme diz Don Miguel Ruiz, o medo e o sofrimento são parte importante do drama planetário e a miséria gosta de companhia.

Não há possibilidade de Iluminação, ascensão espiritual (ou como é moda se dizer hoje em dia: mudar o DNA ) se não nos libertarmos desses padrões de comportamento – a começar pela Impecabilidade da Palavra – reflexo do medo atávico.
Não há passe de mágica para transcender esse nível de falsos condicionamentos que fazem da nossa estadia neste planeta uma batalha incessante que só nos leva a frustração e ao sofrimento.
O Trabalho do Eu não se trata de empreitada fácil. Aqui ninguém é Mestre, pois somos todos ainda suscetíveis a constantes quedas e retrocessos. Mas a própria caminhada já traz  a recompensa de se ter um vislumbre da Liberdade, da Paz e da Felicidade.