ÁGUIA DOURADA

ÁGUIA  DOURADA

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sábado, 3 de abril de 2010

O DAIME E A MÍDIA ALUCINADA - Maurício de Oliveira

Esse mês de março fica mais triste com a morte de Glauco, o cartunista, e seu filho Raoni, ambos assassinados. Como se veiculou pela mídia, pai e filho eram adeptos do Santo Daime – a chamada doutrina da floresta. Uma forma religiosa nascida em plena Amazônia, que agora, na sequência dos acontecimentos, vem sendo retratada de maneira preconceituosa pela grande imprensa.
Preconceito que remonta aos tempos do Mestre Irineu, que reunia em si tudo o que era de mais estigmatizado na época: negro maranhense, analfabeto, pobre e espírita, que ainda por cima cultuava religiosamente bebida de índios. Irineu Serra trabalhou ao lado de marechal Rondon, no período de expansão e integração do Brasil, pelas terras dispersas dos povos indígenas. O lema de Rondon, em referência à sua missão junto aos índios, era o mais cristão possível: matar nunca, morrer se preciso for.
Glauco e Raoni parecem ser vítimas também desse preconceito velado em relação à cultura indígena e africana, que permeia os meandros de nossa constituição como povo. É incrível como alguns setores da imprensa ainda ignoram a natureza cristã do Santo Daime, não conseguindo sequer reconhecer a fabulosa riqueza cultural que envolve a tradição daimista de povo interiorano da floresta. A religião de Glauco e Raoni, cuja matriz se encontra na Amazônia, é referência internacional em manejos ecológicos de áreas de proteção ambiental, mas isso não é comentado. Há numerosos relatos de curas de doenças físicas, recuperação de viciados em drogas, integração e inserção social, porém o que se enfoca mais uma vez é o escândalo, a fatalidade, a tragédia que ocorreu no Pico do Jaraguá, em Osasco, São Paulo.
Nesse momento, a ética do bom jornalismo passa longe. Sem cerimônia alguma, jornais e revistas estampam em suas primeiras páginas títulos que já trazem embutidos o julgamento e a condenação, como se a mídia pudesse substituir o martelo do juiz. As reportagens deveriam se assemelhar mais ao caráter investigativo de um inquérito policial do que a um processo judicial. A imprensa, com seu poder de síntese, acaba produzindo julgamento prévio, em vez de apenas fornecer subsídios para que o leitor tire suas próprias conclusões, sem induzi-lo. Pelo menos foi assim que aprendi no curso de jornalismo. Agora entendo porque as grandes mídias trabalharam seus lobbies, junto ao Congresso, e conseguiram extinguir a necessidade de diploma para jornalistas. O jornalista, sem base, está perdendo a simples capacidade de reflexão.
A pacificação jurídica do Santo Daime é um processo que vem há mais de vinte anos sendo estudado, em detalhes, sob a vista clínica e multidisciplinar de gente séria, de pesquisadores, sociólogos e juristas, nacionais e internacionais. Mas, nem o tempo, nem a consolidação legal da doutrina conseguem fazer a mídia atualizar-se. Continuam as matérias chamando Daime de “alucinógeno”, quando na verdade se trata de um enteógeno (classificação dada por cientistas franceses, o povo mais racional do mundo). O daimista obtém visões (mirações) quando, em ritual, fecha os olhos, mas ao abri-los, toda a realidade que o cerca mantém-se “normal” – porque “miração” é uma percepção interna, espiritual. Já o psicótico alucinado não consegue se desfazer de suas “visões”, tanto de olhos fechados, como abertos. O alucinado não tem percepção de tempo e espaço. Se indagado, não sabe dizer se vive no ano de 2010 ou no de 1850; se está no Brasil ou no planeta Marte. São perguntas básicas que um psicanalista faz para saber se está diante de alguém que alucina. Esses e outros muitos testes foram feitos ao longo dos anos, quando se estudavam os efeitos desse sacramento que sempre foi utilizado pelos povos indígenas da América pré-colombiana.
Mesmo assim, alguns veículos de mídia insistem em passar a ideia já superada de que os daimistas lutam para fazer de uma “droga” um novo sacramento religioso. Equívoco duplo: não se trata de droga e sua sacralidade tem mais de dez mil anos. Não há necessidade de se sacralizar uma bebida cujo uso ritual é milenar, mais antigo que a própria civilização. Pelo que consta, era usado pelos Incas, até chegar o homem branco europeu, que invadiu as Américas, em busca de ouro e prata, não percebendo que o verdadeiro tesouro se encontrava no seio da floresta, em sua biodiversidade natural. Irineu Serra, em contato com os índios, no Norte do país, obteve através de uma miração a missão de “cristianizar” o Daime, que até então era conhecido como ayahuasca, terminologia Inca. Portanto, na doutrina entram os elementos sincréticos do cristianismo e das religiões indígenas e africanas. Mais brasileiro que isso, impossível.
Por outro lado, laboratórios estrangeiros e os biopiratas estão sempre de olho nessa biodiversidade amazônica. Por vezes, tentaram “patentear” o Daime, em busca do direito exclusivo de uso, industrializando-o como remédio. Ora, este fato, por si só, já corrobora a tese de que Daime cura: não é droga, nem alucinógeno. É um enteógeno (ente = ser; geno = genética, origem). Numa simulação deste cenário absurdo, poderíamos imaginar o brasileiro indo à farmácia para comprar o prozac amazônico, ao custo exorbitante do processo industrial. A sociedade brasileira perde um grande cartunista. E para o Santo Daime, Glauco e Raoni são seus mártires. Sua morte ainda não foi inteira e suficientemente esclarecida, e o caso parece ser complexo, pois envolve a participação de um jovem – Carlos Eduardo – que fora afastado da igreja para se tratar de problemas de transtornos mentais, conforme a orientação que se dá para estes casos. Desconfia-se que “Cadu” teria recorrido, durante esse período, ao uso de drogas pesadas, ou tomado ayahuasca em outros centros que não pertencem ao Santo Daime. Nesse mês de março, ele retornou ao Céu de Maria, igreja de Glauco e Raoni, armado com revólver, precipitando a tragédia.
Ainda há lacunas nesse caso, mas a mídia está cuidando de adiantar suas conclusões – o que põe em risco a sua credibilidade futura como veículo de comunicação. Afirmar pura e simplesmente que Cadu “surtou” por ingestão do Daime que tomou três meses antes, na igreja, não procede, pois o efeito não ultrapassa doze horas. Mais parece um “surto programado”, do tipo que matou John Lennon. Gerações e gerações de daimistas tomam Daime desde 1930, e nunca houve um caso como esse. E a imprensa quer produzir uma regra geral, partindo desse caso único e isolado.
A mídia alucina, quando deseja passar o Santo Daime como um exército de psicóticos pronto para detonar uma bomba. Se Cadu se achava “reencarnação” de Jesus Cristo, não é esta a realidade de milhares, quiçá milhões, de daimistas espalhados pelo mundo, para quem Jesus é o filho único de Deus, que há dois mil anos encarnou entre nós, mas agora virá em espírito.

PREDADORES DA AMAZÔNIA - Leonardo Boff

Belo Monte: a volta triunfante da ditadura militar ?

O Governo Lula possui méritos inegáveis na questão social. Mas na questão ambiental é de uma inconsciência e de um atraso palmar. Ao analisar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) temos a impressão de sermos devolvidos ao século XIX. É a mesma mentalidade que vê a natureza como mera reserva de recursos, base para alavancar projetos faraônicos, levados avante a ferro e fogo, dentro de um modelo de crescimento ultrapassado que favorece as grandes empresas à custa da depredação da natureza e da criação de muita pobreza. Este modelo está sendo questionado no mundo inteiro por desestabilizar o planeta Terra como um todo e mesmo assim é assumido pelo PAC sem qualquer escrúpulo. A discussão com as populações afetadas e com a sociedade foi pífia. Impera a lógica autoritária; primeiro decide-se depois se convoca a audiência pública. Pois é exatamente isto que está ocorrendo com o projeto da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu no Estado do Pará.

Tudo está sendo levado aos trambolhões, atropelando processos, ocultando o importante parecer 114/09 de dezembro de 2009, emitido pelo IBAMA (órgão que cuida das questões ambientais) contrário à construção da usina, a opinião da maioria dos ambientalistas nacionais e internacionais que dizem ser este projeto um grave equívoco com consequências ambientais imprevisíveis.

O Ministério Público Federal que encaminhou processos de embargo, eventualmente levando a questão a foros internacionais, sofreu coação da Advocacia Geral da União (AGU), com o apoio público do Presidente, de processar os procuradores e promotores destas ações por abuso de poder.

Esse projeto vem da ditadura militar dos anos 70. Sob pressão dos indígenas apoiados pelo cantor Sting em parceria com o cacique Raoni foi engavetado em 1989. Agora, com a licença prévia concedida no dia 1º de fevereiro, o projeto da ditadura pôde voltar triunfalmente, apresentado pelo Governo como a maior obra do PAC.

Neste projeto tudo é megalômano: inundação de 51.600 ha de floresta, com um espelho d’água de 516 km2, desvio do rio com a construção de dois canais de 500m de largura e 30 km de comprimento, deixando 100 km de leito seco, submergindo a parte mais bela do Xingu, a Volta Grande e um terço de Altamira, com um custo entre 17 e 30 bilhões de reais, desalojando cerca de 20 mil pessoas e atraindo para as obras cerca de 80 mil trabalhadores para produzir 11.233 MW de energia no tempo das cheias (4 meses) e somente 4 mil MW no resto do ano, para por fim, transportá-la até 5 mil km de distância.

Esse gigantismo, típico de mentes tecnocráticas, beira a insensatez, pois, dada a crise ambiental global, todos recomendam obras menores, valorizando matrizes energéticas alternativas, baseadas na água, no vento, no sol e na biomassa. E tudo isso nós temos em abundância. Considerando as opiniões dos especialistas podemos dizer: a usina hidrelétrica de Monte Belo é tecnicamente desaconselhável, exageradamente cara, ecologicamente desastrosa, socialmente perversa, perturbadora da floresta amazônica e uma grave agressão ao sistema-Terra.

Este projeto se caracteriza pelo desrespeito: às dezenas de etnias indígenas que lá vivem há milhares de anos e que sequer foram ouvidas; desrespeito à floresta amazônica cuja vocação não é produzir energia elétrica mas bens e serviços naturais de grande valor econômico; desrespeito aos técnicos do IBAMA e a outras autoridades científicas contrárias a esse empreendimento; desrespeito à consciência ecológica que devido às ameaças que pesam sobre o sistema da vida, pedem extremo cuidado com as florestas; desrespeito ao Bem Comum da Terra e da Humanidade, a nova centralidade das políticas mundiais.

Se houvesse um Tribunal Mundial de Crimes contra a Terra, seguramente os promotores da hidrelétrica Monte Santo estariam na mira deste tribunal.

Ainda há tempo de frear a construção desta monstruosidade, porque há alternativas melhores. Não queremos que se realizem as palavras do bispo Dom Erwin Kräutler, defensor dos indígenas e contra Belo Monte: “Lula entrará na história como o grande depredador da Amazônia e o coveiro dos povos indígenas e ribeirinhos do Xingu”.

PS: Queiram escrever para esses e-mails oficiais seja da Presidência da República, seja do Ministério do Meio Ambiente, seja do IBAMA e demais autoridades para reforçar a campanha da suspenção do projeto da construção da Unsina Hedrelétrica de de Belo Monte no Xingu, por amor aos povos indígenas, à Amazônia e à Mãe Terra:

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cmailto:carlos.minc@mma.gov.br Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

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