ELIANE HAAS

ELIANE HAAS

Todas as matérias podem ser veiculadas, desde que citada a fonte.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

IFISMO - Os Ensinamentos de Orunmilà (parte 2)

Pelo fato de Ifá e o dele decorrente culto aos Orixás não possuir códigos de conduta do tipo "Dez Mandamentos" formou-se a idéia errônea de que se trata de uma prática amoral de comportamento, que desconhece os conceitos do Bem e do Mal. No entanto, vários Odus - caminhos de aconselhamento de Orunmilà - atestam a importância do bom caráter - denominado Iwà Pèlé - que, invariavelmente, deveria refletir na conduta dos seres humanos.



Ifà exalta a necessidade do controle das emoções onde a paciência, a dignidade, a honestidade, o respeito, devem superar a mentira, o orgulho, a prepotência, a arrogância e a ganância. Não sob ameaça de castigo, mas como consequência da Lei Universal de ação / reação.
O compromisso de se construir um bom caráter é o maior desafio a que somos permanentemente submetidos perante os conflitos e tensões na nossa existência na Terra.
Para Ifà a verdadeira felicidade decorre de se ter Ìwà Pèlé, pois evita confrontos nocivos com os outros seres humanos, resultando num poderoso escudo de proteção, também nas esferas não terrenas. Então podemos dizer que o objetivo principal dos ensinamentos de Ifà é o cultivo do Bom Caráter - o Iwà Pélè. 
Esta seria a essência da Espiritualidade. Tem a ver com coração e não com reputação, pois esta é conferida pela sociedade, é transitória e não habilita ao mérito da eternidade.

O sincretismo religioso criou, reproduzindo o exemplo do Deus judaico-cristão, a falsa idéia de um Orixá que "castiga".
No entanto, reconhecendo o Ori (mente humana) como soberano no seu livre-arbítrio, Ifà aponta todo sofrimento como fruto do desequilíbrio nas atitudes. Eventos favoráveis ou nefastos são a manifestação de energias geradas pelo caráter, ou seja, resposta ao Ori : àquilo que verdadeiramente somos na intimidade e que, por vezes, podemos até mascarar diante de outros ou nós próprios, mas é plenamente conhecida da nossa centelha Divina e do Divino Orixá que nos impulsionou à Vida.
Apesar das regras e sanções religiosas, nossa civilização prioriza cada vez mais os bens materiais, em detrimento de valores reais e eternos, não hesitando em desrespeitar o direito alheio e até da Natureza, na sede de obter "coisas" que não fazem parte da nossa bagagem eterna. Coisas que integram o transitório mundo tridimensional do "ter" e nos desconectam de "ser" o nosso Eu Superior na sua plenitude.


Ifà assinala que o cultivo do bom caráter é saber exercê-lo. Chama atenção do poder ilusório que serve aos interesses pessoais, na crença arrogante de se possuir salvo-conduto para algum privilégio especial. O Odu Ogbe Iwori chega a advertir que honrar demasiadamente o dinheiro, impede ou leva a perda do bom caráter. A fortuna material deveria ser sempre um meio e não um fim.

Quando cultivamos e exercemos Iwà Pèlé atuando com integridade, na verdade estamos armazenando e difundindo boa energia (Asè/Axé) para cumprir da melhor forma o destino que escolhemos mediante desígnio cármico, conquistando um lugar no Universo de Olòdúmarè (Deus Supremo, Fonte da Criação Universal) e sempre agradecendo ao nosso Ori - pois unicamente a ele devemos todas as nossas escolhas.

domingo, 30 de dezembro de 2012

IFISMO - Os Ensinamentos de Orunmilà (parte1)


Os babalawos (detentores dos segredos de Ifá) e demais sacerdotes apoiam seus argumentos em milhares de versos e mitos. Como meus artigos se destinam a informar leigos sobre a filosofia de Ifá / Orunmilá, não teremos a preocupação de citar  fontes.
Trata-se aqui de uma abordagem não tradicional, pois esta já é muito bem divulgada por africanos  familiarizados com o estudo de Ifá desde a mais tenra infância.


Ifá não pretende ser uma filosofia de penetração mundial e muito menos converter ou angariar fiéis. Seu propósito é reunir seus seguidores originais reencarnados na Terra para praticar seus ensinamentos e evoluir na sua jornada, como tantos outros, sob outras denominações e princípios, também o fazem.
Trata-se de uma tradição multi-milenar, se considerarmos a África como um possível berço do homo sapiens e este já estar habitando a Terra há cerca de 300 000 anos. (o sapiens sapiens há 120 000 anos).  Segundo esta tradição esses ensinamentos teriam sido entregues a espécie humana pelos mentores que aqui implantaram e desenvolveram a nossa espécie.

Ifá é quem determina, através do seu vastíssimo corpo literário, o correto procedimento para se lidar com as energias da natureza denominadas Orixás.
Os Orixás são, por sua vez, emanações Divinas que, antes do nosso nascimento em cada encarnação, contribuem com a sua energia para o bom cumprimento da nossa missão na Terra, nos instruindo e orientando sobre probabilidades que possam ocorrer, assim como as atitudes que, para o nosso bem, seria aconselhável tomarmos.
É óbvio que, transpondo o portal do nascimento, tudo isso é esquecido, embora permaneça gravado no nosso inconsciente e emergindo quando  nos conectamos com a centelha Divina em nosso interior.

Eles também podem responder e nos orientar quando consultamos o Oráculo sagrado.
Ifá é o instrumento de comunicação da Divindade Orunmilà, denominado Eleri Ipin – o testemunho da Criação. Aquele que sabe todas as respostas, por ser a Inteligência que retem e transmite os desígnios da Suprema Divindade Universal, Olodumare – de quem emanaram os multi trilhões de galáxias e a quem não ousamos nos dirigir. 
Orunmilà representa a Sabedoria que adveio para ordenar o big bang. É uma espécie de HD universal onde todas as informações estão armazenadas. No entanto, além de receptáculo é um HD inteligente. É a própria Mente do Criador.
Orunmilà se manifesta na Terra através de Ifá, com seus 256 Odus, que são signos inteligentes, padrões de destino.
Cada Odu possui características próprias e, como tudo no Universo manifestado, também aspectos positivos e negativos, vários caminhos e mitos que revelam sua história e particularidades.
Os Odus são os principais delineadores dos destinos humanos e do mundo que os cerca. São agentes cármicos.


Orunmilà responde aos humanos através de Ifà, que, por sua vez, se utiliza dos Odus. Como energias geradoras  dos seres humanos, os Orixás não interferem no destino pré acordado de uma pessoa, mas podem, sim, facilitar a sua bem-sucedida execução.

Para as pessoas acostumadas com filosofias religiosas que lhes impõem rígidas regras de conduta e aos transgressores ameaçam com castigos, Ifà pode parecer não restritivo, amoral e irresponsável, a ponto de “permitir” que cada um se comporte como bem entende. Seus aconselhamentos datam de um tempo ancestral em que, ao invés de proibir e punir, ao ser humano era confiado o direito do livre-arbítrio  e dele se esperava o necessário discernimento. 
Embora Ifà não estabeleça regras de conduta como as religiões de cunho moral o fazem, possui um código ético bem definido, que permeia todos os itan (mitos).
O primeiro Odu que veio ao mundo, Ejiogbe, teve como missão aperfeiçoar o padrão de conduta dos humanos em nome de um ideal construtivo, sempre servindo sem esperar recompensa. Colocou-se contra o caos das confusões, intrigas e trapaças. Aconselha a defesa da Verdade, ciente de que na integridade se encontra a maior recompensa. É um Odu que prega pureza e ética absoluta.

Encarnados em matéria, com necessidades, tentações e frustrações, temos na prosperidade e no comportamento com relação ao dinheiro o primeiro desafio que se contrapõe a nossa evolução espiritual.
Dinheiro é o passe para o mundo em matéria e Ifà é bem realista para não “demonizar” os bens materiais tão necessários a nossa sobrevivência, e a aquisição de elementos positivos para a nossa evolução na Terra, assim como o apego a elementos negativos que significam entraves para essa mesma evolução.
 
O segredo da energia dinheiro, como alimentá-la – compartilhando para que possa circular e multiplicar – com trabalho e sacrifício, é um ensinamento básico de Ifà.
A partilha do dinheiro tem sido e sempre será motivo para cobiças e guerras enquanto destinados a viver em matéria, sob o DNA vigente.
O poder extremo que o ser humano concedeu a manifestação da energia dinheiro, ao invés de usá-la e compartilhá-la como instrumento capaz de construir, transpondo barreiras e limites materiais para o bem comum,  acabou se transformando em seu algoz. Essa energia, quando fora de controle, conferindo um poder ilusório, acaba por devorar todas as virtudes que se possa ter adquirido no decorrer das muitas vidas no plano tridimensional.
Por isso Ifà adverte que as aquisições materiais, embora objetivo legítimo quando vem coroar a competência e o esforço no trabalho, não deve perder de vista a meia medida e a prioridade de promover e contribuir para o bem geral.
Enquanto a prosperidade é sadia, pois pode possibilitar o bem de muitos, a cobiça e a ganância que prejudicam o interesse alheio já trazem desequilíbrio, desagregam e acarretam sofrimentos que põem a perder uma encarnação inteira.

Segundo Ifà, o sucesso material conquistado às custas da exploração de outros é inútil e vazio, conduzindo ao nada.
Lidar com a prosperidade é um atrativo instigante – para os desavisados - e eficaz exercício de desapego, pois sua transitoriedade não permitirá que nos acompanhe na eterna Jornada. Um desafio que pode levar civilizações inteiras à derrota.


sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A NOVA ORDEM CÓSMICA

A história remota do nosso planeta já atravessou, ao longo dos seus 4 milhões e meio de anos, Idades de Luz e Idades de Treva – ciclo do qual estamos saindo e que na linguagem das sagradas escrituras hindus denomina-se kali yuga.
O momento atual vem sendo assolado por presságios apocalíticos que chegam a profetizar a total destruição do planeta.
A descoberta da fissão nuclear que resultou na explosão de bombas atômicas marcou o início do período de transição para uma nova Era de Luz na Terra, porém não livre de ameaças sob ameaças catastróficas. Desde então, a Terra passou a ser preparada para uma nova etapa na sua e na existência dos habitantes que hospeda.

É óbvio que a Terra, como qualquer outro corpo celeste, não está entregue à revelia dos seus habitantes, para que dele e nele façam o que bem entenderem. Na Terra o livre-arbítrio dos humanos tem conduzido a espécie para situações de fome, injustiça social e guerras ininterruptas. As grandes descobertas científicas e catástrofes naturais ocorrem com o aval do Conselho de Mentores, composto por Seres Ascencionados de Luz, responsáveis por sua evolução desde os primórdios.
Em decorrência das ondas de energia de frequência mais elevada que passaram a ser emitidas por este Comando planetário, algumas pessoas vem se sintonizando com essas vibrações positivas, percebendo no seu íntimo uma espécie de “chamado para a Luz”.



Influenciadas por esse Chamado Interno, dedicam-se mais efetivamente a uma busca de valores espirituais, numa indagação sobre a sua natureza, procedência, verdadeiro propósito de estar aqui e do conhecimento sobre nossa verdadeira origem - a da nossa parte imperecível. Isto levou a mudanças na sua maneira de ser e, através de uma nova forma de ver o mundo, alinhamento com uma mentalidade diversa da vigente nas mídias.
À medida que mais se conectam com essa nova frequência, mais positivas se sentem e efetivamente vão se transformando.

Em contrapartida, conforme dizia Sathya Sai Baba, “quando aumentamos a intensidade da luz, também aumentamos a intensidade da escuridão - o que explica o aumento de violência irracional nos últimos anos” .

Então, a esmagadora maioria da população terrestre encontra-se cada vez mais inebriada e identificada com as disputas e a ilusão densa do mundo material ( que, por sua vez, se torna dia a dia mais fascinante e encantador, com suas possibilidades aparentemente ilimitadas), comprometida com as forças involutivas que, por sua vez, também se auto-alimentam e fortalecem, atraindo o nascimento de seres primitivos, identificados com essa escuridão.
Essa treva crescente se alastra e permeia "felicidades" nunca satisfeitas e desejos insaciáveis que cavam um buraco ilimitado de ansiedade egoísta, para culminar nas drogas, na ganância, na violência gratuita. Seres robotizados, nervosos e insensíveis que elevam a estatística dos crimes e dos acidentes.



Neste estágio caótico de preparação para a intervenção direta que está por vir na Nova Ordem Cósmica para a qual o planeta se prepara, torna-se bem evidente essa ruptura. Dois mundos absolutamente contrários convivem no mesmo espaço/tempo.
Pessoas que se afundam, de forma irreversível, na escuridão das suas almas até se autoconsumirem e outras que se percebem seres em plena evolução, alinhando-se rumo a mais um passo em direção a sua eterna jornada, segundo os desígnios do Grande Mistério e conscientes da sua natureza como poeiras estelares transmigrando de mundo em mundo.

Até que a grande mudança ocorra, catástrofes prosseguirão varrendo a Terra diariamente. A única forma segura de se passar ao largo e não ser arrastado para acidentes perversos ou ataques nefastos que, muitas vezes, nem estavam no nosso desígnio cármico, é o trabalho no exercício do autoconhecimento para, consumindo as trevas interiores, estar em condição de assegurar uma conexão mais compatível com as frequências de Luz para cá enviadas.

Após a necessária limpeza e "reformatação", a Nova Ordem Cósmica trará para os habitantes da nossa linhagem neste orbe, mais um ciclo de progresso real e menos doloroso, baseado na cooperação solidária, sem necessidade de legislações restritivas e punitivas.
Neste novo patamar evolutivo, quem a ele se alinhar poderá experimentar a real felicidade de vivenciar e integrar a rede do Poder Universal infinito, onde todos estão em um e cada um está em todos, transitando pela eternidade. 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

ILUMINANDO A SOMBRA - 3

“ A projeção no nível do ego é facilmente identificável: se uma pessoa ou coisa, nos acusa, provavelmente não estamos projetando. Se nos abala, há boas chances de que sejamos vítimas de nossas próprias projeções”.
Ken Wilber – Encontrando a Sombra


Um dos artifícios mais enganosos - e engenhosos - da nossa sombra para manutenção da zona de conforto do auto-engano é a projeção. Trata-se de uma transferência inconsciente de comportamentos nossos para outras pessoas, fazendo-nos repudiar essas características, acreditando que são estranhas a nós mesmos.
Aspectos da nossa personalidade que nos parecem inaceitáveis e que não gostaríamos de assumir, são atribuídos a objetos externos ou a outras pessoas.
Sempre que algo nos aborrece ou perturba profundamente, é porque não estamos querendo assumir esse aspecto em nós mesmos. Isto porque uma considerável carga emocional gerada pelo comportamento da outra pessoa só nos afeta quando mentimos para nós mesmos, detestando e procurando ocultar e ignorar essa mesma característica.
Tudo o que gera indignação, principalmente os preconceitos inexplicáveis, refere-se a algum aspecto não ou mal resolvido de nós mesmos.
Esse processo se inicia, em geral, simultaneamente a confecção das máscaras que passamos a usar para encobrir partes de um verdadeiro Eu que, tememos, não obtenham a aceitação/admiração geral. Projetamos nos outros as nossas deficiências inconfessadas e, muitas vezes, dizemos a eles o que seria mais apropriado dizer a nós mesmos.
Nada do que dizemos ou fazemos é acidental. No universo holográfico estamos em tudo e tudo está em nós.
Sempre que julgamos alguém, seria importante ter a lisura de examinar com toda sinceridade e nos indagar se ele não poderia ser atribuído a nós mesmos. Como diz o ditado popular, “quando apontamos o dedo para acusar alguém, há três dedos voltados para nós”.


É nesta oportunidade que a Ayahuasca, com sua clareza e imparcialidade, permite que nos perguntemos, na intimidade do Ser: - quando fui assim ou agi dessa mesma forma ?




Vivemos diante de espelhos – as outras pessoas - que refletem emoções, comportamentos e sentimentos que procuramos esconder.
A Ayahuasca é capaz de iluminar esses aspectos para que possamos reconhece-los e recuperá-los.
Uma vez que incorporamos determinada característica, outras pessoas que a compartilham já não estabelecerão um vínculo conosco, deixando de nos afetar.
È importante também observar a projeção de aspectos positivos que detectamos nas outras pessoas. Sua inteligência, sua beleza, seu poder, seu sucesso. Se queremos “ser” como a outra pessoa é porque dispomos de potencial para também sermos assim. Neste caso, a tarefa será descobrir, desvelar no nosso interior aquela mesma faceta, ainda que em estado bruto.
Procurando viver a altura do nosso potencial total, não precisaremos projetar os aspectos daqueles que o conseguiram. Desconectando deles esses aspectos, poderemos retomar a sua posse e, através de uma plena realização, ficaremos cada vez mais centrados em nós mesmos, ao invés de nos ocuparmos dos outros – sejam eles objeto de repulsa ou admiração.
O que nos abala emocionalmente – seja positiva ou negativamente - pode transformar-se num catalisador para o nosso crescimento.
A projeção é um artifício benéfico, capaz de revelar aspectos nossos que talvez permaneçam ocultos durante toda a vida. Recuperando esse determinado aspecto, temos a possibilidade de integrar a totalidade do nosso Ser.

domingo, 28 de outubro de 2012

ESPIRITUALIDADE NA MATURIDADE

“ o ancião detém o acervo da sua ancestralidade. Quando o mundo não cultiva saberes ancestrais , o povo não sabe de onde vem nem para onde vai”.
                                                            Pajé Santixiê Tapuia – do povo Tapuia Fulniô

A partir da meia idade ocorre geralmente uma crise existencial acompanhada, muitas vezes, de uma sensação de vazio e depressão.
Antes voltadas para a realidade externa - na luta pela sobrevivência e realização profissional – as pessoas priorizaram o consciente, relegando o inconsciente a um plano secundário.
Já no processo de envelhecimento, os afetos passam a pesar mais do que os conceitos – que eram ferramentas úteis para o bom desempenho na vida prática, no plano material, tendo como metas, sucesso e poder.

Respeitando os ciclos naturais afetivos, diríamos que, se na infância predomina filos, na vida adulta predominaria eros e na maturidade haveria a necessidade de se vivenciar ágape.
Isto significa honrar os ciclos impermanentes da Vida e feliz daquele que pode cumpri-los todos. A velhice é um deles e, diríamos até, seu ponto culminante.

Sublimando a depressão, prosseguem insistindo em repetir os passos de sempre, fazendo (ou tentando fazer) as mesmas coisas – o que gera frustração, devido as evidentes limitações. Numa sociedade narcisista que cultua a beleza física dentro de um padrão bem particular e idealizado, a velhice se encontrará cada vez mais deslocada.
Perante o desafio de enfrentar mudanças biológicas e psicológicas, alguns acabam numa tentativa patética de perseguição do corpo perfeito, numa solidão crescente perante o declínio inevitável.

Outros já se conscientizam de que responder as demandas emocionais de um corpo perecível, sujeito à dor e à decadência significa manter-se presa de desejos nunca satisfeitos. Voltam-se para o verdadeiro Eu, imortal, invulnerável e independente de um veículo físico.
Procuram compensar a frustração buscando a Espiritualidade. Perante o declínio físico e para fazer frente ao desamparo da finitude eminente, apegam-se a uma fé que lhe assegure a “vida eterna”. Ocorre, frequentemente, o resgate de uma crença familiar e esquecida, não livre de culpa, marcando o retorno a velha religião, reminiscência da sua infância, não raro institucional e dogmática.

- O que significa Espiritualidade para vc ? teria necessàriamente algo a ver com religião ?

Há os que enfrentam o envelhecimento como um processo de amadurecimento ligado a uma reorientação da consciência espiritual.
Passam a cultivar outros valores. Quando voltados para o corpo, haverá de ser para um corpo sadio e harmônico e não para um corpo que corresponda aos vigentes padrões de beleza. Saudável em toda a sua plenitude, servindo de instrumento para um balanço sobre todo o vivido, o fracasso ou a realização das metas estabelecidas, a busca do sentido de uma vida prestes a se encerrar.

Espiritualidade seria um processo de expressão dos níveis mais profundos do inconsciente. Uma conexão entre o Divino Interior e a Suprema Consciência Cósmica, que nos faz sentir parte do Todo. Seria a união dos, até então dissociados, conteúdos distintos da psique. Um processo rumo à transcendência e à integridade.
Nesta vivência da Espiritualidade, à medida que as máscaras – tão úteis para a sobrevivência e o sucesso no plano material - vão caindo, vai-se resgatando aquele ser pré-adolescente, num processo inverso à infância e ao parto. Permanece o que é perene, a essência.
É em forma de essência pura, despidos das cascas do ego, que deveríamos partir daqui.
Quem consegue transmutar conhecimento adquirido em sabedoria, realizou a plenitude do seu Ser, na encarnação atual.

Esse enfoque da Espiritualidade passa pelo autoconhecimento. Não é através de mentalizações da Luz que nos iluminamos, mas sim quando penetramos as regiões abissais da nossa escuridão mais profunda.

Na nossa sociedade atual / ocidental, como consequência do desrespeito à sacralidade da Vida e total desconexão com a Natureza, a velhice é achincalhada e relegada ao afastamento, como estorvo obsoleto.
A civilização do culto ao “agora” - que no momento seguinte já é descartável, valoriza o corpo jovem e suas novidades, num estranhamento as suas origens e com tudo o que veio antes - com o que aqui já estava e com os ciclos evolutivos do próprio Planeta.
Nela o ancião e o peso da sua experiência são desprezados como ultrapassados, pois tudo ocorre de maneira vertiginosa, como se a História pudesse ser reescrita a partir do zero, a cada dia.

Todas as culturas nativas da Terra reverenciam a ancestralidade e honram os anciões como elo que une o que foi ao que será, poi quem não olha e honra de onde veio, dificilmente saberá valorizar e estabelecer metas para onde vai.
As civilizações ditas primitivas respeitam os seus velhos como depositários de uma herança que permitiu que estejamos aqui hoje.
Òbviamente, o simples fato de ter atingido idade avançada não outorga ao idoso legitimidade como guardião das tradições e da sabedoria ancestral do seu povo.
Aquele que não consegue cumprir o processo de integração (consciente/inconsciente), sucumbe, muitas vezes, a um processo de infantilização e até a uma quase demência. Não se poderia, portanto, generalizar e identificar em cada ancião o arquétipo do “velho sábio”, pois há individualidades que não se realizam.

No final da década de 60 surgiu na sociedade ocidental uma experiência cultural transformadora que implantou um novo paradigma voltado para uma concepção holística da Natureza e da Espiritualidade, que contemplava desde o ocultismo metafísico, até as práticas de meditação orientais e de estados alterados de consciência, a filosofia budista, a teosofia e suas ramificações , até a psicologia transpessoal e uma medicina voltada para a manutenção da saúde .
Este movimento eclético e multicultural – conhecido como Nova Era - vem influenciando também uma Espiritualidade alternativa desenvolvida por pessoas que não se alinham as religiões institucionais e dogmáticas.

No limiar do atual milênio há movimentos crescentes de resgate da memória ancestral, onde anciões são reconhecidos como lideranças dos respectivos povos, num propósito de reconexão com os significados essenciais da Vida, para que juntos possamos cuidar do nosso planeta e do bem viver da humanidade na Terra.
Trata-se de uma tomada de consciência rumo a um caminho inverso - que contempla não o consumo desenfreado, mas o respeito aos recursos finitos e a sustentabilidade como valores essenciais para a sobrevivência nossa e dos que virão, incluindo as espécies animais e vegetais. Da mesma forma, a preservação das espécies imateriais, expressões da criação humana, como a música, as artes, a literatura.




Um exemplo disso foi o Encontro do Conselho Internacional das Avós Nativas, realizado em Brasília no ano passado.

Representantes anciães, lideranças das mais diversas etnias da Terra vieram, neste momento tão crítico que o Planeta atravessa, reverenciar, valorizar e discutir o “ontem” através da ancestralidade que nos conduz ao presente e a um futuro que conjugue valores culturais, sociais, econômicos e ecológicos.

Resumo da palestra proferida pela autora na UNIFESO (Centro Universitário Serra dos Órgãos) em 26/10/12.

domingo, 30 de setembro de 2012

A MÚSICA NO NEOXAMANISMO

A música – a Arte das Musas - foi, talvez, a primeira manifestação artística da humanidade. Tudo indica que, antes de registrar nos muros das cavernas divindades e animais, a espécie humana já produzia sons com a finalidade de reproduzir os sons da natureza e afastar o medo, não se sentindo tão só.

Como a música é algo que desvanece no tempo, sem existência palpável no espaço, a sua História que data de, pelo menos, 300 000 anos, só conta com registros recentes. Torna-se tarefa difícil para a Arquelogia estabelecer, mesmo através da forma de antigos instrumentos musicais reproduzidos pictoricamente, o tipo de música que criavam. Tentativas neste sentido não passam de especulação.

O indivíduo capaz de produzir música que encantasse os demais e sobretudo “tocasse” o Divino manifestou-se desde o paleolítico e, por conseguinte, a prática Xamânica tradicional desde sempre esteve estreitamente ligada ao fazer musical.

Esticando-se a pele curtida do animal abatido, construíram-se os primeiros tambores. Ossos transformaram-se em flautas e a voz humana – com ou sem conteúdo verbal – reverenciava a Criação e seus Deuses – emanações da Divindade Suprema, o Grande Mistério.

Mesmo servindo ao caráter lúdico das festividades dançantes e ao entusiasmo heróico das guerras, nunca perdeu seu vínculo divino do músico com o Poder Superior.

Os instrumentos musicais tornaram-se também instrumentos de Poder, responsáveis não só pelo encantamento estético, mas também para transportar o ouvinte a realidades supra-sensoriais e realizar tarefas em outros níveis vibratórios.

A importância efetiva da música nesses níveis é tal que, além de afetar o ser humano através da sua herança filogenética, conforme atesta a recente disciplina da Musicoterapia, segundo o revolucionário best-seller “A vida secreta das plantas, de Peter Tompkins e Christopher Bird”, até as plantas são capazes de sentir e reagir às ondas sonoras puras e também às musicais - ou seja, inteligentes.

No Neoxamanismo a tecnologia de ponta da nossa época possibilitou uma prática musical mais sofisticada e rica, ampliando nosso universo sonoro através da incorporação de timbres e linguagens musicais vinculadas a múltiplas etnias, utilizando desde os mesmos instrumentos do paleolítico, até instrumentos eletroacústicos.

Para servir ao propósito inicial Xamânico, que permanece o mesmo desde os primórdios, o músico deve deter o domínio absoluto do seu instrumento. Isto requer, além do básico talento inato, décadas de dedicação ao instrumento. Então, ser um Mestre na técnica do seu instrumento para transformá-lo em veículo do Grande Mistério e suas Hierarquias, deveria ser condição primordial.

Infelizmente, as aparentes facilidades que a tecnologia atual permite, conduzem, muitas vezes, a um mal entendido onde o iniciante na Arte da Música julga-se já apto a submeter o seu fazer musical aos ouvidos alheios, esquecendo-se de que aprendizado se faz em casa.

Principalmente num estado alterado de consciência, essas tentativas canhestras se agigantam, surtindo o efeito contrário de caos e desarmonia, que acaba comprometendo o propósito do ritual e impedindo o “voo” às esferas superiores.

                                      
Em decorrência disso, seria aconselhável uma tomada de consciência e autoexame por parte daqueles que se pretendem músicos, para só exercer a sua função de serviço no Trabalho Xamânico, quando realmente alcançarem a excelência de se fazer ouvir pelos homens e pelos Deuses, e não para alimentar o seu próprio ego.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

ILUMINANDO A SOMBRA - 2

Conforme observamos anteriormente, dispondo dessa verdadeira Luz Divina – que é o maravilhoso instrumento Ayahuasca – as Jornadas neo-xamânicas no Céu da Águia Dourada são voltadas para o Trabalho de mergulhar na mais profunda intimidade desse nosso Eu velado, para ali desmascarar, iluminar e transmutar aspectos sombrios da nossa personalidade – que anuviam o cristal límpido que deveria ser extensão e reflexo da Luz Maior.
A verdade é que cada ser humano consiste, desde que se manifesta como individualidade, numa “tabla rasa” com todas as características e potencial inerente a sua espécie.
A educação e o trabalho pessoal no sentido da sua própria evolução, no decorrer das várias encarnações, é que vão delinear as diferenças que se manifestam, por vezes, gritantes. Mas, no fundo, somos todos iguais e – com exceção de alguns boddhisatwas que na Terra permanecem em voluntária missão de serviço – nosso planeta é uma Escola de nível ainda baixo, frequentada por alunos com potencial capaz de manifestar, dependendo do estímulo, uma pequena gama de dons que vão desde a mais obscura treva até a resplandecente partícula da Luz Divina.



Ao tomar consciência de que não somos assim tão diferentes dos nossos mais empedernidos “semelhantes”, podemos desenvolver, não um perdão imposto pela religião, mas uma compreensão reconciliatória com todas as fraquezas humanas. Um amor genuíno que reconhece, porque se identifica, uma irmandade verdadeira. Só quando nos identificamos com as falhas alheias é que somos capazes de manifestar uma compaixão sincera, não imbuída de orgulho e falsa superioridade.
No momento em que admitimos que a totalidade de possibilidades faz parte de nós, demolimos preconceitos e somos capazes de nos tornar aquilo que queremos ser, em toda a sua plenitude.

Nesta conscientização está a chave para a verdadeira Liberdade e a realização plena do Ser íntegro para o qual fomos “projetados” e é justamente para este exercício de auto-conhecimento que as nossas Jornadas no Céu da Águia Dourada têm se voltado.
Não é tentando, incessante e insistentemente, visualizar a Luz que nos iluminamos, mas sim tomando consciência da escuridão.