ÁGUIA DOURADA

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sábado, 21 de março de 2015

BUDISMO E ECOLOGIA PROFUNDA - por Jostin Khirsty


Os sistemas espirituais são mais do que a crença em uma divindade transcendente ou um meio para atingir o estado pós-vida. Eles são um modo de compreender tanto o cosmo quanto o nosso papel em sua preservação. Desse modo, estamos intimamente ligados à ecologia, que abarca a percepção cultural do parentesco e a dependência do ambiente natural para a continuidade da vida. 

O Budismo, um dos maiores sistemas espirituais do mundo, oferece uma filosofia bem desenvolvida de nossa ligação com a natureza. A ecologia profunda está focada na sobrevivência e na autorrenovação de todos os seres vivos. O casamento de sistemas espirituais com a ecologia profunda promove a percepção moral e cultural do parentesco do ambiente natural com a continuidade de toda a vida. 
Ouvimos falar da ocorrência de desastres ecológicos em todo o mundo com muita frequência. Quase todas essas crises resultam da negligência, apatia e avidez humanas. Elas variam do esgotamento de recursos naturais, da extinção de espécies, do crescimento da poluição e das mudanças climáticas à explosão populacional e ao consumo exacerbado. Desde de 1992 a Liga de Cientistas Engajados (Union of concerned scientists), com mais de cem ganhadores do prêmio Nobel e 1.600 outros cientistas de 70 países, tem advertido sobre a crise ecológica que se aprofunda, causada pelas atividades humanas no planeta. 
Os cientistas afirmam que é necessária uma grande mudança na administração da Terra e da vida sobre ela, se quisermos evitar uma enorme miséria e a irrecuperável mutilação do nosso planeta. Quase todos os avisos desse tipo são ignorados e ridicularizados. Uma proeminente fonte de desinformação a respeito do aquecimento global, por exemplo, foi governo Bush-Cheney. Eles silenciaram os cientistas que trabalhavam para o governo a respeito desse problema e empossaram profissionais céticos, recomendados por companhias petrolíferas para o posto de principais negociadores. O mundo tem estado atônito com a arrogância e a ignorância desses líderes políticos e seus apadrinhados. 
As razões para as ameaças à natureza, especialmente no Ocidente, não são difíceis de detectar. Espíritual e psicologicamente vivemos dentro de uma bolha, a bolha do "eu" e o restante do mundo "lá fora". Segundo o pensamento Budista, esse senso de separação se manifesta sob a forma de três venenos: ganância, má vontade e ilusão. Exemplos desses venenos podem ser vistos em toda a parte, no atual quadro de crise ecológica. A ganância tem raízes no crescimento econômico desenfreado, e o consumismo é a religião secular das sociedades industriais avançadas. Ao mesmo tempo, o complexo industrial-militar promovem a má vontade, o medo e o terror, enquanto os sistemas de propaganda, politica ou não, são bem conhecidos por iludir o público a respeito. A questão fundamental de nosso tempo é se podemos ou não fazer oposição a essas forças, desenvolvendo atitudes de respeito, responsabilidade e cuidado com o mundo natural, e assim criar um futuro sustentável. 
Desde sua origem na Índia, 500 anos antes do nascimento de Cristo, o Budismo disseminou-se pela Ásia e atualmente exerce influência crescente sobre a cultura ocidental. Nós no ocidente, estamos despertando para o fato de que existe uma ciência da mente mais antiga do que a nossa. 
O filósofo Allan Watts assinalou que, historicamente Buda (563-483 a.C) foi o primeiro grande psicoterapeuta da humanidade. Ele não apenas reconheceu o significado da ansiedade existencial( ou Sofrimento) que estamos sempre experimentando como também apresentou maneiras de tratá-la. Muitos psicólogos e psiquiatras consideram a atual descoberta da filosofia budista no Ocidente como uma espécie de segunda renascença. 
Ao longo dos séculos, a filosofia budista tem sido cuidadosamente estudada e documentada por estudiosos e praticantes pelo mundo afora. Um ponto de partida é o princípio central referente à interconexão de toda a vida- seres humanos, animais e vegetais - O ensinamento ético budista enfatiza que essa interdependência vem com um componente moral. Para nós, humanos, isso significa manter um senso de responsabilidade universal em tudo o que fazemos. 
A pedra angular de todo o ensinamento budista são as Quatro Nobre Verdades. A primeira verdade é a do sofrimento(a ansiedade existencial), começando com o nascimento, estendendo-se com o envelhecimento e, depois, inevitavelmente com a morte. A segunda verdade é que a ganância e o desejo humano são a raiz de nosso sofrimento. A terceira verdade afirma que é possível eliminar o desejo, a ganância e o sofrimento pela transformação da mente. A quarta verdade é o Nobre Caminho Óctuplo, um conjunto de práticas para cultivar essa transformação, levando à extinção tanto do desejo quanto do sofrimento. Os budistas asseguram que a cuidadosa percepção da ansiedade existencial produz uma empatia compassiva por todas as formas de vida. 
Dois outros conceitos formam a base do pensamento budista: a impermanência e a interdependência. Todos os fenômenos são impermanentes, porque tudo está em transição. A interdependência se refere ao fato de que tudo é parte de tudo o mais. 
As raízes filosóficas do movimento chamado de ecologia profunda podem ser encontradas nos escritos de Henry David Thoreau, Theodore Roszak, Lewis Mumford, Rachel Carson e outros, remontando a Baruch Spinoza e aos filósofos budistas. Mas foi em 1982 que o filósofo norueguês Arne Naess cunhou o termo, para distingui-lo de uma ecologia rasa, antropocêntrica e tecnocrática. Desde então, Naess tem divulgado detalhadamente uma plataforma abrangente, descrevendo o significado e o escopo da ecologia profunda, delineada num resumo de oito pontos: 
1- O bem-estar da vida humana e não humana é valioso em si mesmo
2- A interdependência, a riqueza e a diversidade das formas de vida contribuem para a realização desse valor
3- Os seres humanos não têm o direito de reduzir essa riqueza e essa diversidade, a não ser para satisfazer necessidades vitais. 
4- A atual interferência humana no mundo não humano é excessiva, e essa situação está piorando rapidamente
5- O florescimento da vida e da cultura humana é compatível com a diminuição gradual da população humana. Além disso, o florescimento da vida humana requer essa diminuição
6- Portanto, as políticas devem ser mudadas. As mudanças na política afetarão a economia básica e a estrutura tecnológica 
7- É necessária uma mudança ideológica que passe a enfatizar a qualidade de vida ao invés da luta por um padrão de vida sempre mais elevado
8- Aqueles que subscrevem os itens acima têm a obrigação de ajudar a implementar essas mudanças. 
Imaginar um ego isolado de tudo o mais e trancafiado num saco de pele é uma alucinação. Na verdade, tudo está conectado com tudo mais. Dada à enorme similaridade do pensamento budista com a ecologia profunda, não é difícil compreender que a egocentricidade precisa ser substituída pela ecocentricidade. 
Como podemos aproveitar a óbvia interconexão entre o pensamento budista e ecologia profunda para lidar com os problemas urgentes que ameaçam os seres vivos neste planeta? Como escreveu Vaclav Havel,ex-presidente da República Tcheca, "a única opção para nós é uma mudança na esfera do espírito, na esfera da consciência humana. Não basta inventar novas máquinas, novas regras e novas instituições. Devemos desenvolver uma nova compreensão do verdadeiro propósito de nossa existência na Terra. Somente ao efetuarmos essa mudança fundamental, seremos capazes de criar novos modelos de comportamento e um novo conjunto de valores para o planeta." 
Assim como Havel, dezenas de filósofos, economistas e políticos têm reconhecido que a crescente crise humana é resultado da falta de raízes espirituais profundas, produzidas em grande parte pelo fato de o significado e a identidade espiritual terem se divorciado da vida. Mas como podemos despertar para enfrentar essa crise? 
Atualmente existem evidências de uma mudança cultural emergente, já que milhões de pessoas e seus líderes estão se mexendo para lidar com essas questões, como se estivessem saindo de um transe. Aqui estão algumas possíveis vias de aproximação:
- Despertar coletivo
- Construção de sistemas sustentáveis
- Transformação da economia mundial
- Transformação da ética
Dizem que quando as pessoas viram Buda logo após a sua iluminação, ficaram tão perplexas pela extraordinária quietude de sua presença que pararam para perguntar: "O que sois? Sois um deus, um mago ou um feiticeiro?". A resposta foi surpreendente. Buda disse simplesmente:"Eu estou desperto." Sua resposta tornou-se o seu título, pois isso é o que significa a palavra buda em sânscrito: aquele que está desperto. Enquanto o restante do mundo estava em sono profundo, sonhando um sonho conhecido como estado de vigília, Buda livrou-se do sono e despertou. 
Embora o chamado para o despertar de Buda tenha ocorrido há muito tempo, tendo desde então se repetido inúmeras vezes por quase todos os sistemas espirituais conhecidos, é desastroso que uma metafísica mal compreendida nos tenha levado à alienação entre nós e a Terra e entre nós e os outros seres vivos. É imperativo que restauremos a percepção dessa interdependência. Naturalmente, uma transformação assim requer profunda reeducação a cada passo de nossas vidas. As fundações particulares, organizações não governamentais, instituições acadêmicas e organizações religiosas têm igual interesse em estabelecer prioridades nesse esforço. 
É importante que perdoemos as destruição do passado e reconheçamos que ela foi produzida pela ignorância. Ao mesmo tempo, devemos reexaminar, do ponto de vista ético, que tipo de mundo herdamos, tudo aquilo por que somos responsáveis, e tudo, o que lograremos às gerações futuras.


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